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Luz Silenciosa

Uma jornada interna sobre o amor, o perdão e a redenção

Luz Silenciosa (Stellet Licht, 2007) foi dirigido pelo mexicano Carlos Reygadas. Com onze trabalhos realizados entre curtas e longas-metragens, Reygadas tem como principal característica de seus filmes, a abordagem existencialista de seus personagens em que a fé, sofrimento e o significado da vida são explorados.

O longa se passa em uma comunidade menonita (grupo de denominações cristãs que descende diretamente do movimento anabatista que surgiu na Europa no século XVI, na mesma época da Reforma Protestante) em Chihuahua, no México e acompanha a vida de Johan, um pai de família casado com Esther (Miriam Toews), mas que está apaixonado por Marianne (Maria Pankratz). Esse sentimento desestabiliza toda a família, principalmente esses três personagens principais. Com diálogos em Plattdeutsch, um baixo-alemão pertencente à área dialectal das línguas germânicas ocidentais faladas no norte da Alemanha e no leste dos Países Baixos, o filme traz fortes influências de A Palavra (Ordet, 1955) de Carl Theodor Dreyer.

A primeira imagem chama logo a nossa atenção. Um plano geral do céu durante a noite nos mostra as estrelas enquanto a câmera se movimenta lentamente para mostrar um horizonte enquanto nasce o sol. O momento dura pouco mais de cinco minutos e não tem pressa em mostrar a beleza dessas imagens, que já sugerem muito do tom da narrativa. Respeitando o seu próprio tempo, estamos diante da imensidão de um céu que ao mesmo tempo em que contrasta com a simplicidade da história e de seus personagens, os iguala no que diz respeito a imensidão do ser humano e de seus sentimentos.

Em seguida somos apresentados à família de Johan. Todos sentados à mesa, oram antes de tomarem o café da manhã. O som do relógio durante a cena tem um papel importante para Johan, pois já há o contexto do seu tormento por se ver apaixonado por Marianne. Esse som que marca o tempo que passa, traz consigo uma angústia para o personagem ao ponto de parar o relógio e se entregar ao choro depois que sua esposa e seus filhos saem de casa pela manhã. O “eu te amo” dito para a esposa, minutos antes, é pronunciado enquanto vemos as costas de Johan, que tem sua mão tocada por Esther.

Vale destacar também como em “Luz Silenciosa” a contemplação do simples cotidiano e de elementos da natureza são intrínsecos à narrativa, aos seus personagens e às suas emoções. O longa é mais do que uma história, pois nos convida a praticamente senti-lo junto com Johan, Esther e Marianne.

No trabalho do personagem, a câmera fixa do lado de fora da oficina, vai se aproximando lentamente da entrada como se ela respeitasse o espaço de Johan e se aproximasse de sua história aos poucos para não ser invasiva. O ruído incomodo no local parece uma representação do conflito interno do protagonista, que logo quando termina o trabalho, confessa para um amigo que Marianne seria uma esposa melhor para ele. Mais uma vez temos o complemento de algo externo que está em total harmonia com o estado emocional de seus personagens. Uma canção no rádio irradia alegria em Johan que pede para que aumentem o volume da música, que imediatamente transforma o personagem que começa a cantá-la. Quando sai com o carro, Johan dá voltas com o veículo ao redor de seu amigo, enquanto a câmera subjetiva de seu amigo representa ao mesmo tempo nosso próprio olhar, nos fazendo de testemunha de seu estado de espírito.

Sem julgamentos, somos apresentados a história de um homem simples que está apaixonado. Como disse Reygadas em uma entrevista, Luz Silenciosa não se trata de um filme sobre os menonitas, mas sim sobre pessoas. Temos os arquétipos do homem, da esposa, dos filhos e de uma segunda mulher. Tecnicamente Marianne poderia ser chamada de “amante”, mas a ternura e a verdade com que as relações entre os três personagens são mostradas para nós, até mesmo a compaixão com que Marianne terá com Esther em um momento importantíssimo do filme, impede o uso do termo “amante” da forma pejorativa que estamos acostumados a ouvir.

O encontro entre Johan e Marianne, por sinal, tem também sua poesia visual. Como já citado acima, não há julgamentos e Johan vai ao encontro de Marianne enquanto um plano detalhe de seus pés o mostra caminhando por um campo com algumas flores amarelas. O encontro dos dois é selado com um beijo que também não tem presa, carregando na cena uma simplicidade e honestidade naquilo que ambos sentem naquele momento. Um banho que antecede um passeio em família para um lago (agora com sua esposa), parece sugerir uma ideia “purificação” para Johan, ainda que o roteiro não tenha a intenção de julgá-lo.

A contemplação da família no café da manhã se repete no passeio. Vemos os filhos de Johan e Esther se divertindo no lago enquanto a natureza também é contemplada pela câmera. Mesmo com o momento de descontração, Esther sabe que sua relação não anda bem e seu choro espontâneo revela isso. O roteiro entra nas questões da fé do personagem e da religião quando Johan vai procurar seu pai para pedir auxílio na decisão em deixar ou não a esposa para viver com Marianne. A cena é dirigida como uma confissão em uma igreja e o plano detalhe da boca do senhor que está de perfil, destaca esse momento como a sabedoria de um homem mais velho e vivido, que não está muito feliz com a decisão do filho, pois defende o casamento embora compreenda a situação de Johan.

Mais elementos visuais auxiliam na forma de representar a emoção e o contexto em que estão vivendo seus personagens. Esther está pilotando uma máquina responsável por derrubar a plantação de milho que já está seca, porque provavelmente já foi realizada a colheita. Essa devastação faz um paralelo com os sentimentos da mulher, assim como um simples céu nublado que antecede uma grande virada no roteiro e que é responsável por um grande rumo na história. Essas rimas visuais são sem dúvidas muito bem construídas ao mesmo tempo em que não pretendem ser forçadas, já que fazem parte do cotidiano de seus personagens.

Sem dar spoilers, a partir daqui o ponto alto de Luz Silenciosa é quando entramos nas questões de culpa, religião, remorso e perdão. A trágica virada e um verdadeiro milagre (ou apenas algo simbólico) que ocorre nas últimas sequências podem ser interpretados de diversas forma pelo espectador, cujas crenças possam influenciar na forma de entendimento desse aparente milagre. Mais um motivo para comentar da grandiosidade do cinema e como ele á capaz de causar diferentes formas de interpretação de acordo com nossa história e no que acreditamos. Johan e Marianne estão sendo castigados por Deus e recebem o perdão que precisavam? Ou tudo foi feito de forma simbólica e sem representar de fato a realidade? Ou quem sabe há outra explicação.

Independentemente do que você possa achar, entenda como essa obra é sensível ao contar uma história tão simples, ao mesmo tempo em que a direção de Carlos Reygadas é capaz de potencializar as emoções de seus personagens que dão a Luz Silenciosa um ar etéreo que envolve todo o filme. Fora isso, o respeito aos seus personagens que mesmo introvertidos, têm seus momentos de pôr para fora tudo o que sentem, tendo apenas nós como cúmplices. Sem dúvidas temos uma poesia em fotogramas sobre amor, culpa e redenção que são tão sublimes quanto o céu que volta a encerrar a história no final do filme.

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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