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O que é e pra que serve a ficção científica?

E como a tecnologia reflete a essência humana

A tecnologia é um tema de frequente preocupação e especulação na humanidade. Seus potenciais de modificação na cultura, nas relações interpessoais, no ecossistema, na mente humana, etc. já é assunto abordado há séculos. Platão e Sócrates, por exemplo, já escreviam acerca disso. Inevitavelmente, tais discussões e anseios que permeiam as sociedades não poderiam deixar de ser traduzidas em forma de arte. Na literatura, Mary Shelley trouxe à tona questões envolvendo as descobertas no campo da eletricidade (Frankenstein, 1896), e Júlio Verne abordou temas como a exploração de territórios desconhecidos (Viagem ao centro da terra, 1864; Da Terra à Lua, 1865; Vinte mil léguas submarinas, 1870), entre outros.

O ano de 1895 é tomado como referência para o surgimento do cinema, e o posterior desenvolvimento de uma linguagem audiovisual permitiu o diálogo com a literatura e o surgimento dos filmes de ficção científica. A adaptação de Georges Méliès em 1902 do livro de Julio Verne, Trip to the Moon (1902), marca o início desse diálogo.

Trip to he moon (1902)

O gênero (ou subgênero, como alguns preferem classificar) se define pela presença de pelo menos um elemento apoiado no imaginário tecnocientífico, seja este elemento o enredo, o personagem, o contexto, entre outros.

É importante perceber que, apesar de grande parte das narrativas de ficção científica se ambientarem no tempo futuro, elas acima de tudo manifestam as ansiedades do presente. Esses filmes estampam na tela os imaginários que ocupam as mentes de pessoas contemporâneas a sua produção. Apesar de os dramas envolverem tecnologias irreais, sua história diz respeito ao contexto social e histórico no qual a obra está inserida, e transfere para o audiovisual elementos invisíveis do imaginário coletivo sobre o que se pensa e se sente a respeito do progresso tecnológico e suas modificações na cultura.

“A ficção científica fala do presente para entender o passado e, assim, aponta alternativas para futuros já irrealizáveis” (Vogt)

Ainda que possa haver esta pretensão, o cinema de ficção científica ambientado no futuro não tem função profética. É basicamente irrelevante se os aparatos técnicos apresentados na película acabaram, posteriormente, tornando-se realidade ou não. Esse tipo de comparação serve mais para fins de curiosidade do que para o propósito do filme. Pelo contrário, a narrativa de ficção científica é um meio valioso pelo qual podemos entender as relações essencialmente humanas, ou até pós-humanas, que estabelecemos com o mundo através de ferramentas (extensões do corpo humano), máquinas (substitutos do corpo humano) e, especialmente, aparelhos (substitutos do intelecto humano). São os aparelhos técnicos que mais aparecem nesse tipo de obra. Os instrumentos e máquinas estão presentes e muitas vezes são até centrais em tramas dos mais variados gêneros, mas o aparelho ainda é artefato principal do imaginário futurista, dadas as suas praticamente infinitas potencialidades.

Metropolis (1927)

No gênero, a inteligência artificial integra os enredos desde Metropolis (1927) até hoje, como em Ex Machina (2015), reproduzindo o confronto do ser humano consigo mesmo. A constante preocupação com artefatos inteligentes remonta aos mais antigos anseios da humanidade, que se aponta como a única criatura capaz de pensamentos inteligentes e, portanto, especial no universo.

“Desde a Antiguidade, o homem tem construído autômatos – engenhos mecânicos capazes de gerar seu próprio movimento – e figuras animadas artificialmente” (Fátima Régis)

Nosso antropocentrismo é elementar desde os mitos e religiões. O nosso desejo de nos equipararmos aos deuses, nos tornando criadores de seres que nos obedeçam e nos venerem, já faz parte do imaginário desde épocas místicas, através de mitos como o de Prometeu que roubou o fogo dos deuses, e de Adão e Eva, que comeram o fruto proibido do conhecimento.

“Esses filmes têm o seu lado clichê, mas a sua elaboração se nutre dos arquétipos primordiais que vêm orientando os humanos desde a origem dos tempos” (Cláudio Paiva)

Os robôs criados pela ficção científica se diferenciam dos robôs industriais, frutos da tecnociência, pois as narrativas ficcionais os reconfiguram, atribuindo a eles qualidades imaginárias. Os robôs industriais foram projetados para realizar tarefas específicas e repetitivas, assemelhando-se a braços mecânicos, cavalos de aço ou polvos gigantes. Para além de funções mecânicas, esses robôs se aproximam intelectualmente e emocionalmente dos seres humanos. Nas telas do cinema, estamos acostumados a vê-los no papel de escravos em busca de sua liberdade. Não por coincidência, a palavra “robô” se origina do tcheco “robota”, e significa trabalho forçado ou escravo.

Animatrix: The Second Renaissance (2003)

Essa clássica busca pela emancipação pode ser apresentada sob diversos aspectos. Em A.I. Artificial Intelligence (2001), David é uma inteligência artificial que sonha em se tornar um garoto de verdade, a fim de conquistar o mesmo amor que sua “mãe” tem pelo filho biológico. Em Animatrix: The Second Renaissance (2003), o robô B1-66ER se rebela contra seus proprietários e os matam ao saber que seria desligado. O caso desencadeia uma revolução das máquinas, que desejam libertar-se do controle humano.  Os robôs da ficção possuem forma corporal e capacidade sensorial e emotiva que os habilita a atuar no mundo humano. Histórias em que a inteligência artificial é colocada como protagonista colocam em questão não apenas as possibilidades e os perigos da técnica que envolve esse tipo de aparelho, mas também as inquietações da própria inteligência humana.

Em Blade Runner (1982), são os replicantes que vêm clandestinamente à Terra em busca de mais tempo de vida, mas eles também refletem o primordial desejo humano de adiar ou até evitar a morte. No filme Ex Machina (2015), a inteligência artificial AVA engana os humanos para conquistar sua própria liberdade, atitude que ela mesma aprendeu com os bancos de dados sobre comportamento humano. Em Her (2013), o sistema operacional Samantha expõe seu desejo de auto-descoberta e exploração das coisas do mundo, primeiramente frustrada pela falta de um corpo, mas, posteriormente, aliviada por não ter tal limitação, pois assim é capaz de ocupar múltiplos espaços simultaneamente, realizando inúmeras tarefas e evoluindo exponencialmente a cada instante. Samantha denuncia nossas próprias fraquezas e ambições inalcançáveis.

The Matrix (1999)

A inteligência artificial na ficção científica também, algumas vezes, assume uma roupagem mais amigável. A despeito das histórias que criticam o comportamento humano e o progresso técnico, há obras que enaltecem os avanços em IA. Para o escritor Isaac Asimov, por exemplo, o chamado “complexo de Frankenstein” – criaturas que se voltam contra seus criadores – representam um perigo à ciência e ao conhecimento, incutindo no imaginário um medo das tecnologias e da inteligência artificial. Filmes adaptados de obras do autor tcheco geralmente são protagonizadas por robôs bem intencionados, que sofrem com a rejeição humana e com as limitações de sua própria existência. Bicentennial Man (1999) é um exemplo de enredo que demonstra a inocência e pureza das inteligências artificiais. No filme, o robô Andrew Martin apresenta emoções humanas, protege as pessoas e tenta sobreviver enquanto aqueles que o criaram tentam destruí-lo. Assim, robôs e androides são figuras frequentemente humanizadas nas telas da ficção científica.

Her (2013)

Os computadores, no entanto, são uma figura mais distante. Eles são frios, lógicos, isentos de emoções (a princípio). É por ser a criação mais diferente do criador que os computadores são, justamente, os mais ameaçadores. Enquanto o robô e o androide são feitos à imagem e semelhança do ser humano, o computador parece ocupar uma imagem mais próxima do divino. A rede de computador de The Matrix (1999) é onisciente, onipresente e onipotente dentro da Matrix. Os computadores não estão meramente presentes naquele universo; eles são o próprio universo, criado para abrigar as mentes humanas enquanto seus corpos servem de fonte energética para as máquinas. Em Colossus: The Forbin Project (1970), os computadores dos EUA e da URSS, criados para prevenir a guerra nuclear, acabam tomando controle das nações no mundo e subjugando a humanidade aos seus comandos, assim, a princípio, evitando o confronto bélico. Em 2001: uma odisseia no espaço (1968), HAL é o típico monstro de Frankenstein; a criatura que se volta contra o criador. O supercomputador de Kubrick, ocupando uma posição de divindade perante os humanos, acaba por se considerar mais capaz de liderar a importante missão que leva a primeira nave terrestre até o encontro de um sinal de rádio emitido por um aparelho extraterrestre. A máquina, que até então era considerada objeto de extensão do corpo humano, passa assim a reivindicar o status de sujeito, dono de uma agenda própria.

Filmes de ficção científica são, inevitavelmente, produtos do imaginário que o cercam, bem como das realizações humanas alcançadas até o momento. Em um movimento que vai além da junção entre ciência e imaginário, o cinema de ficção científica reconfigura o real e o imaginário através da ficção. Ou seja, a obra não se resume a uma soma dos dois elementos, mas sim a uma criação de um terceiro elemento, completamente novo, e que também entrará em diálogo com os outros dois.

Blade Runner (1982)

Written by Alan Soares

Bebo água e assisto filmes. O resto é trivial.

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