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Reasons To See – The Handmaid´s Tale

Ao término da primeira temporada da série The Handmaid´s Tale (2017- ), além do vazio angustiante que é ter de esperar pelo próximo ano, fica a certeza: não há como sair ileso de uma história tão complexa, brutal e ao mesmo tempo cheia de amor e esperança.

Exibida no Hulu, serviço de streaming concorrente da Netflix e ainda inédito no Brasil, a série criada por Bruce Miller e grande vencedora do Emmy neste ano – foram seis troféus, incluindo Melhor Série Dramática –  é baseada no livro O Conto da Aia, escrito por Margaret Atwood em 1985 e se utiliza da construção de uma distopia para discutir as relações de poder e as crueldades impostas pela misoginia, homofobia e fundamentalismo religioso de um regime totalitário.

Embora a utilização de eventos pós-apocalípticos como alegorias para críticas sociais não seja novidade no cinema e na televisão, em The Handmaid´s Tale é o presente e não o futuro o tempo em que  a história se desenvolve.

O mundo sofreu um colapso ambiental por conta da emissão de gases venenosos, o que gerou uma onda de infertilidade e queda vertiginosa da taxa de natalidade. Os Estados Unidos agora são a República de Gilead. Desde que os Filhos de Jacó tomaram para si o poder, a constituição e os direitos civis foram substituídos pelas Sagradas Escrituras da Bíblia. É o que está lá que rege as leis e por ela que os novos crimes são julgados. O conceito do pecado é hiperbolizado e as punições severas. Nos muros e postes que cercam a cidade, gays, padres ou qualquer um que se oponha ao novo regime de terror são enforcados.

O medo e a sensação constante de ameaça criam uma atmosfera de perigo sufocante. Não é paranoia, o poderio e a opressão do Governo acompanham os personagens a cada caminhada pelas ruas.

Os homossexuais são tratados como “traidores de gênero”, professores, intelectuais e jornalistas condenados ao trabalho forçado em Colônias contaminadas por lixo tóxico. Os livros e as obras de arte foram tirados de circulação. Quem for pego cometendo tal “crime” corre o risco de perder os olhos ou as mãos.

As mulheres perderam completamente os seus direitos e são propriedade do Estado. Seu único papel nesta nova sociedade altamente patriarcal é servir às necessidades dos homens. De um lado temos as esposas que vivem sob a sombra de seus maridos poderosos. Do outro as Aias, únicas com o dom da fertilidade e capazes de gerar vida pelo fato de já serem mães. Os abusos físicos e psicológicos do treinamento ministrado por fanáticas religiosas para fazer das mulheres aias reprodutoras são assombrosos. Sob o pretexto de servir à vontade de Deus, elas são transformadas em escravas sexuais. O estupro impostos pelos seus donos, os poderosos Comandantes, uma vez ao mês – em seus períodos férteis – em uma cerimônia que conta ainda com a presença das esposas durante todo o ato.

 

No  “mundo de antes” June é uma mulher segura, bem-sucedida em sua carreira, apaixonada pelo marido e mãe de uma garotinha linda. Agora ela é Offred, aia que mesmo submetida a todos os tipos de humilhações alimenta esperanças de reencontrar a família e fugir dos horrores do regime. É sob o seu ponto de vista que acompanhamos a trama.

A atuação de Elizabeth Moss é uma força da natureza! Repleta de nuances, é com o olhar que as emoções mais genuínas são transmitidas, quase sempre em contraposição com o que é dito. Se ela já era ótima em Mad Men, aqui ela está no auge.

A fotografia desbotada e cheia de contraluz é belíssima e imprime ainda mais peso aos dramas das aias. A vestimenta vermelha é a única cor viva na palidez daquele mundo. Em muitos momentos a ambientação lembra uma produção de época de forma proposital para afirmar o quão retrógrado e nocivo o obscurantismo religioso pode ser.

Por mais assustadores que possam parecer alguns conceitos da série, a verdadeira perturbação está na realidade. Os Filhos de Jacó com suas motivações torpes embasadas no fanatismo e no arquétipo da família tradicional poderiam muito bem ser os políticos que ocupam hoje as bancadas da bala e dos religiosos no Brasil. A cultura do estupro e a impunidade nos casos de abusos sofridos pelas mulheres, o tratamento da homossexualidade como doença, o fechamento de exposições de arte por grupos conservadores ou a disseminação da supremacia e do ódio não são exclusividades da fictícia Gilead. The Handmaid´s Tale é um retrato do agora e precisa ser vista urgentemente!

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.

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