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A psicologia do som nos filmes de Aronofsky

ou como fazer você entrar na cabeça dos personagens

[NÃO CONTÉM SPOILERS DE “MÃE”] | [CONTÉM SPOILERS PEQUENOS DOS OUTROS FILMES DO DIRETOR]

Darren Aronofsky é um diretor de filmes dramáticos, intensos, que acompanham os personagens em escaladas psicológicas que giram em torno de desejos profundos e vitais. Os protagonistas de Pi (1998), Réquiem para um Sonho (2000), Fonte da Vida (2006), O Lutador (2008), Cisne Negro (2010) e Noé (2014) (mas vamos esquecer que ele fez esse filme, ok? ok) têm desejos que são maiores que suas próprias vidas, e são capazes de fazer tudo o que for preciso para alcançar seus objetivos máximos da vida, aquilo que dá significado a suas vidas.

Além do roteiro, um dos elementos cinematográficos que mais fazem a gente entrar nesse estado psicológico de obsessão e paranoia dos personagens é o som. Junto ao uso trilha sonora e efeitos sonoros que constroem a cena e a atmosfera, a edição dos sons diegéticos – sons que fazem parte da cena – nos colocam bem perto daquela realidade. Os sons das ações importantes, que remetem ao desejo do personagem, são colocados em primeiro plano, às vezes até isolados, de uma forma propositalmente exagerada.

“Eu lembro de ver, quando eu era criança, um documentário sobre os designers de som de George Lucas […] e eu fiquei fascinado com a ideia de pegar sons estranhos e colocá-los em lugares peculiares” (Aronofsky)

No vídeo abaixo, podemos ver os detalhes sonoros nos filmes do diretor:

Quando Nina (Natalie Portman) está amaciando sua sapatilha, cada arranhão, torcida e batida são claramente ouvidos, em alto e bom som. Não é agradável. É angustiante, perturbador. O mesmo acontece quando Randy (Mickey Rourke) está se preparando para uma luta e os personagens de Réquiem para um Sonho usam drogas. Se esses sons fossem imagens, elas estariam estouradas na tela, sobre um fundo preto e nada mais – basicamente da forma como as imagens realmente aparecem em Réquiem.

Requiem for a dream (2000)

É importante lembrarmos que o cinema nunca foi desprovido de som. O cinema mudo nada mais era do que um cinema não-falado. O som, no entanto, sempre esteve presente, seja através de um pianista na sala de exibição, um improvisador ou às vezes até uma pequena orquestra. Ou então na forma de um fonógrafo reproduzindo o áudio gravado. Na história do audiovisual, são raras as vezes em que a imagem está acompanhada do absoluto silêncio.

E o som sincronizado à imagem, conforme a linguagem cinematográfica foi evoluindo, passou a ser um recurso narrativo poderoso, e não apenas – como de fato era no início do cinema – um fundo musical para quebrar o silêncio da sala. Assim como geralmente se faz em clipes musicais, na edição de Aronofsky o som se dá no ritmo dos cortes de imagem, no que é chamado de hip hop montage. Em cenas específicas, chegamos a ter vários planos por segundo, e é justamente a sonografia que nos coloca dentro daquele ritmo e também nos situa nas ações. O som é unitário, enquanto a imagem é muito mais complexa. Conseguimos identificar o som de uma campainha muito mais rápido do que conseguimos compreender a imagem de alguém apertando o botão dessa campainha.

O jeito abrupto com que a montagem passa de um som para o outro também cria uma pontuação interessante. A sequência de som e silêncio dá um ritmo frenético, igual aos pensamentos do personagem, que se alternam numa velocidade maior do que ele pode processar.

“Não há som sem pausa. O som é presença e ausência, e está, por menos que isso apareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quanto sons no som” (Wisnik)

A vida de Nina, no começo de Cisne Negro, é pacata e tranquila. Tudo está em perfeita ordem. Mas quando o cisne negro começa a tomar conta do cisne branco sua mente de divide em duas, e as duas personalidades começam a se alternar cada vez mais rapidamente – bem como os efeitos sonoros. O mesmo acontece com o quarteto de Réquiem, que vão escalando no vício até perderem controle sobre suas mentes.

“Uma das primeiras razões que me inspiraram a me tornar um cineasta foram as excitantes possibilidades de experimentar com o som” (Aronofsky)

No dia 21 de setembro estrou o mais novo filme de Aronofsky, Mãe! (2017). Depois da decepção para os fãs do diretor que foi Noé, o novo suspense do diretor retoma a sensação de ser puxado pelo estômago para uma narrativa psicológica de tensão, descontrole, loucura e obsessão. Não vale aqui revelar spoilers sobre o filme, mas vale dizer que sim, Aronofsky está de volta com tudo, inclusive com a maestria do trabalho de som, que já podemos perceber pelo próprio trailer:

Written by Alan Soares

Bebo água e assisto filmes. O resto é trivial.

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