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Filmes Para Ouvir – Sobre Café e Cigarros

Poucos diretores conseguem extrair tanta poesia do acaso como Jim Jarmusch (Estranhos no Paraíso, Paterson). Espécie de obelisco do cinema independente americano, em pouco mais de trinta anos de carreira o diretor construiu uma filmografia calcada na beleza da banalidade e do ser humano comum. Quem mais além dele é capaz de transformar em arte algo tão cotidiano quanto ir a uma lanchonete para tomar uma xícara de café e bater papo?

E em Sobre Café e Cigarros (2003) seu estilo delicado e minimalista é latente. Não há uma trama definida ou qualquer elemento narrativo que ligue os 11 curta-metragens que compõem o longa. A prosa descompromissada e repleta de subtexto entre um gole e um trago é o fio condutor para que os verborrágicos personagens discutam sobre vida, morte, racismo, inveja, ciência, fama, televisão e claro, música!

A trilha sonora traz canções de Tommy James, Funkadelic, Jerry Bird e The Skatalites. Nos créditos de abertura a canção “Louie, Louie” de Richard Berry And The Pharaohs remete de imediato à versão incendiária de 45 minutos que Iggy Pop e os The Stooges gravaram em Metallic K.O, um dos discos ao vivo mais dementes da história do rock ( é possível escutar na gravação o som das garrafas arremessadas pelo público em direção ao palco, enquanto Iggy incita uma gangue de motoqueiros praticamente a matá-lo).

Aliás, Iggy protagoniza ao lado do trovador Tom Waits um dos segmentos mais non-sense e engraçados do filme. O diálogo repleto de desconfiança e vaidade de ambos escancara o quão ególatra e excessivo pode ser um rockstar.

Em outro, dois irmãos gêmeos (Joie e Cinqué Lee) tem a sua conversa interrompida por um garçom (Steve Buscemi) paranóico que destila teorias sobre o verdadeiro paradeiro de Elvis Presley. Segundo ele, o Rei tinha um irmão gêmeo que assumia a sua persona e se empanturrava de fast food e drogas. Os irmãos rebatem com frases racistas ditas pelo cantor, enquanto o garçom alega ter sido o gêmeo mal o autor das injúrias. Para o bem ou para o mal. Elvis não morreu, certo?

Enquanto em “Jack mostra a Meg sua bobina de Tesla” o duo do extinto White Stripes discutem as teorias do preterido inventor ao som dos The Stooges em uma lanchonete capenga, em “Delírio” RZA e GZA do grupo de rap Wu Tang Clan se encontram com um excêntrico e compulsivo Bill Murray e discutem os malefícios da combinação cafeína/nicotina.Embora as participações especiais de músicos sejam quase que onipresentes nos filmes de Jarmusch, aqui o interessante é vê-los interpretando versões caricatas de si mesmos.

O mesmo acontece nos segmentos protagonizados pelos atores. Em “Primas”, a sempre maravilhosa Cate Blanchett faz dois papéis: ela mesma como uma celebridade mimada de Hollywood em conflito com a prima rancorosa que a visita em sua suíte. Alfred Molina e Steve Coogan brincam com a falta de fama de um e o excesso do outro em ”Primos?” e Roberto Benigni e Steven Wright declaram amor incondicional à cafeína em uma sequência neurótica e hilária. O exercício metalinguístico proposto pelos diálogos e situações é tão surreal que fica impossível não deliciar-se imaginando como seriam caso acontecessem na vida real.

A direção de fotografia é outro trunfo do filme. A escolha do preto e branco em alusão às cores do café e do cigarro dão um toque de charme e sofisticação e reforça a atemporalidade das questões filosóficas levantadas em cada um dos curtas. A textura de cada quadro salta aos olhos e juro, quase dá para sentir o cheiro das cenas!

Os planos fechados com a câmera sobre a mesa captam os movimentos das mãos para enfatizar o estado físico e mental de cada personagem. A semi-coreografia se transforma em uma elegia ao ato de sentar-se à mesa e apreciar uma das combinações mais endemonizadas por profissionais da saúde de todo o mundo.

Experimental e singelo, Sobre Café e Cigarros é um dos melhores trabalhos de  justamente por mostrar a maturidade de um artista e seu poder de observação diante do comportamento humano.

 

 

Título Original: Coffee and Cigarettes
Diretor: Jim Jarmusch
Ano: 2003
País: Estados Unidos

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.

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