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Terror Universal

A importância da Universal Studios no gênero do horror

Com tantos estúdios hoje investindo em diversas produções no gênero do terror, talvez pouca gente saiba da importância que a Universal teve ao consolidar esse que é um dos gêneros de mais sucesso no cinema. Quem nunca ouviu falar no Monstro de Frankenstein, Drácula, O Monstro da Lagoa, A Múmia, O Fantasma da Ópera e Lobisomem? Alguns desses monstros que já existiam na literatura e na mitologia, ganharam forma, identidade e consequentemente a personificação do medo que assustou plateias do mundo todo, graças à Universal Studios.

O cinema já buscava impressionar as plateias, ainda quando engatinhava. A Mansão do Diabo (Le Manoir du Diable, 1896), de George Méliès, pode ser considerado o primeiro filme de terror na história do cinema. Claro que Méliès usava mais o cinema para criar um universo mágico e fantástico, que mais encantava do que assustava. Já na Alemanha, o Expressionismo Alemão deu vida ao gênero do terror ao acrescentar o que faltava: medo e tensão. O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920) de Robert Wiene, traz uma atmosfera de constante desconforto ao abordar a história do hipnotizador Caligari e seu sonâmbulo Cesare, que faz previsões de mortes em um vilarejo. Como se não bastasse, todo o psicológico dos personagens se estende para a cenografia e a ótima fotografia do longa.

Os filmes de terror da Universal têm na sua raiz criativa, justamente o trabalho de diversos diretores de filmes do Expressionismo Alemão. Muitos desses cineastas fugiram da Alemanha por conta do fortalecimento do Nazismo que entre outras coisas, condenava qualquer arte moderna, chamando-a de “arte degenerada”. Eles então foram acolhidos pela Universal e diversas técnicas de iluminação, cenários, entre outras, influenciaram filmes como Frankenstein (1931) de James Whale, Os Assassinos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932) de Robert Florey e A Casa Sinistra (The Old Dark House, 1932).

Fundada na Califórnia em 10 de junho de 1912 por Carl Laemmle, a Universal Studios já contava com uma grande estrutura e uma ampla cenografia que recriava pequenos vilarejos europeus para diversas produções, muitas vezes reutilizando o mesmo cenário, ou alterando alguns elementos. A Universal foi o primeiro estúdio a realizar tours para o grande público, que em 15 de março de 1915, abriu as portas para que as pessoas pudessem entrar (pagando 25 centavos na época) e ver de perto os filmes sendo produzidos.

Com a evolução da maquiagem, efeitos especiais e visuais capazes de impressionar, esses clássicos do cinema podem até não nos assustar nos dias de hoje. Por outro lado, a construção de histórias e ambientes tão cativantes, com personagens que apesar de serem criados para dar medo, conseguem ser tão carismáticos e às vezes humanizados, só fez com que esses filmes conquistassem a todos ao longo dos anos e permanecessem vivos em nossa memória, mesmo para aqueles que não tenham tanto interesse pelo gênero. E foi justamente a Universal Studios, que como uma enorme “mansão velha e assombrada”, serviu de abrigo para monstros, múmias, lobisomens e vampiros.

O primeiro ciclo da era dos monstros da Universal no cinema, já traz no cinema mudo alguns filmes importantes. Eles não são necessariamente produções típicas do gênero do terror (com exceção de O Gato e o Canário), embora as histórias fossem puxadas mais para o drama, seus personagens principais já tinham características que chocavam a plateia na época.

Destacam-se nessa fase: O Corcunda de Notre Dame, O Fantasma da Ópera e O Gato e o Canário. Em uma época em que o cinema mudo tinha que contar com recursos dramáticos visuais para conseguir entreter a plateia e contar a história, a Universal sabia exatamente como fazer isso.

Laemmle tinha mais interesse nas produções de filmes de faroeste e foi na verdade seu filho, Carl Jr. (mesmo com muitos funcionários e até seu próprio pai desacreditando no seu potencial), que depois do sucesso de Drácula, resolveu investir em produções como Frankenstein, Os Assassinos da Rua Morgue, A Múmia, A Casa Sinistra”, O Homem Invisível, O Gato Preto, O Corvo e O Lobisomem de Londres. Nascia então o segundo ciclo da fase dos monstros da Universal. Maus negócios, porém, estariam por vir e o reinado dos Laemmle enfrentaria grandes dificuldades.

Incursões do estúdio em produções de alta qualidade contribuíram para o fim da era Laemmle na Universal. A ideia de modernizar e melhorar as produções, não era a mais viável durante a Grande Depressão. Dificuldades financeiras forçaram Carl Laemmle a empenhorar suas ações do estúdio por conta de um empréstimo feito para uma produção, o que na época era um mal negócio.

O estúdio então é vendido em 1936 para Charles Rogers e J. Cheever Cowdin, executivos da Standard Capital Corporation, que se propuseram a criar “A Nova Universal”. A primeira decisão era justamente acabar com as produções de filmes de terror. Um ano depois, Drácula e Frankenstein são relançados juntos no cinema para levantar os lucros do estúdio.  O sucesso foi surpreendente e o estúdio voltou a produzir filmes de terror.

O terceiro ciclo, no ano de 1938, conta com filmes como O Filho de Frankenstein, O Lobisomem, A Volta do Homem Invisível, entre outros. Essa nova fase serviu como uma distração para muitas pessoas que vivenciavam um horror muito pior do que aquele que era visto nas telas do cinema: a Segunda Guerra Mundial. As produções eram mais baratas, mas não deixaram de fazer sucesso. Em 1946 a Universal se une com a International Pictures e o terceiro ciclo chega ao fim. Na era pós-guerra o público já não se interessava mais por monstros e queria um mundo mais próximo da sua realidade. Os monstros só voltam a apavorar as plateias na metade da década de 50, porém as produções passam a flertar com o gênero da ficção científica. Destacam-se O Monstro da Lagoa Negra, O Templo do Pavor e Tarântula.

Tantos anos depois dos lançamentos desses filmes, eles ainda continuam populares. Uma prova de que o trabalho de compositores, diretores, atores, maquiadores, roteiristas, produtores, câmeras e equipes de efeitos especiais, foi importantíssimo para a realização de cada projeto.

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.