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Dica: Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos

Assista ao documentário Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos

Bruxas e bruxaria já foram tema de diversos filmes. O cinema independente, mais precisamente, já abordou o assunto no excelente A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999) de Eduardo Sánchez e Daniel Myrick. O longa não chega a ser exatamente sobre o tema bruxaria, focando mais na investigação (no formato found footage) de três jovens sobre a lenda de uma bruxa que sacrificava crianças. A produção se tornou um enorme sucesso na época de seu lançamento, arrecadando 248 milhões nas bilheterias.

No ano passado o tema voltou a ser abordado em A Bruxa (2015), do diretor estreante Robert Eggers, que foi muito elogiado pela crítica ao tratar de forma extremamente fiel, a vida de uma família por volta de 1630 que se vê vítima de bruxaria.

Embora nesse último a história se passe numa época em que ainda existia a caça às bruxas, ambos os filmes conseguem criar uma atmosfera incomoda o suficiente para conquistar o espectador através do desconforto com aquilo que muitas vezes não pode ser visto.

Mas para quem não sabe, a bruxaria ta já foi mencionada no cinema mudo de forma também madura e  politizada. Em 1922 foi lançado Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos, um documentário dividido em quatro partes que é um verdadeiro estudo sobre a bruxaria no século XV, juntamente com a inquisição que foi instituída pela igreja católica.

Dividido em quatro partes, a narrativa se inicia falando sobre as aparições de bruxas e demônios na cultura primitiva e medieval. Em seguida são dramatizadas as crenças e superstições medievais referentes a bruxaria, até chegar no momento em que uma senhora se vê acusada de bruxaria pela família de um homem. Esse momento marca como eram feitas as acusações das pessoas que eram suspeitas de praticarem feitiçaria. Na última parte é quebrada toda a ideia de que a bruxaria realmente possa existir. Pensamentos errôneos perdem seu espaço para a ciência como forma de explicar a injustiça vividas por essas pessoas.

O longa foi filmado entre 1919 e 1921 na Suécia e na Dinamarca, tornando-se o filme mudo mais caro já produzido na Escandinávia, com gastos de produção chegando a um milhão e meio a dois milhões de coroas suecas. Banido nos Estados Unidos e censurado em outros países, o longa foi todo filmado durante a noite para manter o tom obscuro do tema abordado.

A produção é bem caprichada e bem didática, porém sem cair no tédio. Como um documentário tipicamente expositivo, ele dialoga diretamente com o público, fazendo o uso de imagens que comprovam tudo o que está sendo dito e intertítulos explicativos (que seriam substituídos pela narração em off no cinema falado) que passam objetividade e domínio do assunto que está sendo abordado.

A produção ainda faz uso de dramatizações com atores que ajudam a ilustrar o cotidiano dessas “bruxas” e até seus rituais, em cenas muito bem filmadas e sinistras. Destaque para uma cena que mostra diversas bruxas voando em suas vassouras. A cena surpreende para a época em que foi feita e fez uso de uma cidade em miniatura e diversas atrizes filmadas individualmente que depois foram inseridas “no céu” através de uma impressora óptica para dar a impressão de estarem realmente sobrevoando a cidade.

Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos é mais que um estudo da bruxaria, pois vai além ao fazer uma analogia com a época em que o filme foi lançado, mostrando também o sofrimento e o preconceito sofrido por tantas pessoas. Muitas delas tinham problemas psicológicos, ou simplesmente possuíam uma religião que não era o catolicismo. Muitas praticavam rituais, mas que jamais eram aceitos pela igreja católica, gerando hostilidade (e por isso sendo consideradas “bruxas”) pelos demais, por conta de uma ignorância e intolerância que resultaram em um julgamento injusto e covarde.

Ficou curioso? Confira abaixo o documentário legendado em português.

 

 

 

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.