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Pelo em Ovo – Stalker

Bem, posso dizer que talvez este seja um Pelo em Ovo corretíssimo em sua totalidade. Até porque os filmes do Tarkovsky faz a gente “cavucar” de qualquer jeito.
Então aqui vai a minha interpretação real, verdadeira e livre de qualquer forçada de barra.
O filme da vez é Stalker (Andrei Tarkovsky – 1980).

(SPOILER ALERT)


Assisti a Stalker recentemente e posso dizer: é de longe a melhor obra de Tarkovsky!
Digo isso pelas questões levantadas pelo filme e pelas dúvidas implantadas durante toda a película…
Acabei o filme extasiado, perplexo e louco para discorrer sobre minha interpretação, então aqui vai:

Stalker fala, em si, do questionamento da religião!

E por quê? Bem, vamos à análise!

Já no início do filme, vemos um Stalker (Alexandre Kaidanovski) se levantando para fazer seu trabalho, mas muito questionado pela sua mulher.
Ela diz que é muito perigoso, que ele pode não voltar e implora para que ele fique.
O Stalker, em uma de suas falas, diz “estou preso a tudo isso”. Como se estivesse preso a um estilo de vida, mas que não ousasse de fato quebrar esse padrão, como se já estivesse duvidando de suas certezas, mas que não tirava um tempo para refletir sobre.

O que o Stalker fazia era levar as pessoas à Zona, um lugar recentemente descoberto onde o maior desejo da pessoa se tornaria realidade, e este lugar sagrado era trancado a sete chaves, ou seja, para entrar nele, era preciso furar um bloqueio policial.

Temos então uma grande metáfora para a religião.
O que faz as pessoas acreditarem que seus desejos serão verdade e que tem uma grande dominação por trás sustentada pelo Estado?

O trabalho do Stalker era o de levar as pessoas a essa Zona, entendendo que era um trabalho perigoso, pois a Zona podia mexer com suas percepções (ou eles achavam que podia).
O nosso Stalker precisa então, coordenar dois homens à Zona, como um grande líder religioso ou padre.

Estes dois homens eram constituídos por um escritor e por um professor.
E aqui se forma a magnífica tríade entre a arte, a ciência e a religião!

Notamos então, no desenrolar das cenas, os três personagens:

  • Stalker: um padre religioso que vive de sermões e impõe medo em cada passo que dá em direção à Zona.
  • Escritor: um artista incompreendido, meio desiludido com a vida e com questionamentos filosóficos acerca das questões mundanas.
  • Professor: um amante da ciência que tem um medo estampado no rosto de encarar, de fato, a religião.
A religião, a arte e a ciência…

Ao adentrar o espaço sagrado em direção à Zona, o Stalker pede sempre cautela aos companheiros, os dizendo que a Zona pode alterar a realidade e que muitos podem até mesmo se perder no caminho.

O Escritor, no início, não liga muito para estas palavras e tenta adentrar o espaço sozinho, porém escuta um grito parecido com o de Stalker o chamando de volta.
Então ele volta, mas o Stalker diz que não gritou.

Aqui se instala a primeira dúvida.
Quem gritou para o escritor voltar? Stalker o fez e mentiu? Realmente a Zona era mágica?

Com o Escritor de volta ao grupo, Stalker começa a guiá-los por um caminho cheio de obstáculos. Em uma dessas passagens, o Professor esquece a sua mochila e Stalker o aconselha a deixá-la para trás, pois a cada 1 minuto, as paisagens e realidades são mudadas pela Zona.
Mas o Professor não escuta e some para ir em busca do objeto perdido.
Stalker, então, comenta que o Professor se perdeu, que não pode voltar para buscá-lo e segue com o Escritor pelo caminho árduo. Porém, em um momento dá de cara com o mesmo Professor e sua mochila.

Aqui se implanta a segunda dúvida.
Eles deram a volta no mesmo lugar? O Stalker os guiou por esse caminho tortuoso, mas que dava no mesmo lugar? O Professor não estava perdido?

Durante os descansos, o Professor e o Escritor travavam um duelo à parte sobre as questões da vida, dos porquês de procurarem a Zona.
O Escritor era um poeta de fato, questionador, queria ver que não era um fracassado.
Já o Professor pouco se abria, mas sempre tentava rebater o Escritor.
O que é a ciência se não um grande rebatedor da arte?
Já Stalker, não participava de nenhum diálogo e de vez em quando soltava alguns sermões e poesias, bem como um líder religioso que guia os seus comandados.

As percepções do Escritor e do Professor foram distorcidas em algumas cenas, onde eles se recordam de situações passadas de suas vidas e indagam e filosofam sobre temas específicos.
Bem, a religião faz você fazer isso, não?
Com culpa e medo, os dois ficam confusos com os seus desejos, enquanto o Stalker brilha os olhos com essa caminhada para a fé…

Eles seguem por esses caminhos ditos perigosos (mas pouco vistos se perigosos de fato) até chegarem ao quarto da Zona onde os desejos são realizados.

E então um grande turning point! O Professor havia trazido uma bomba na mala para explodir o quarto!
A ciência querendo acabar com a religião! (nenhuma novidade)
E o Escritor, em um ato de transformação, decide ficar do lado do Professor, como um bom existencialista que estava lá tentando achar alguma essência em si.

O Escritor teve medo de seus desejos serem realizados? Ele se convenceu de que a religião não existia e que era preferível viver sem fé?

Bem, só sei que ele decidiu explodir a bomba junto com o Professor, deixando o Stalker afundado em uma crise de desespero.

E o que é o cachorro preto? Para mim, é a dúvida do Stalker frente à religião. É o questionamento dele mesmo, as suas dúvidas…
Ao voltar da Zona, Stalker volta à sua casa com o cachorro, se vê questionando dos porquês das pessoas terem perdido a fé e é consolado pela mulher.

Na última cena do filme (e que cena!), temos a filha de Stalker sentada frente a uma mesa olhando os copos que estão dispostos em cima da mesma.
Ao fundo, escutamos um barulho de trem passando.
Os copos então passam a se movimentar na sequência em que a menina olha para eles.
O trem vai ficando mais fraco, porém os copos continuam a se mover…

Ela está movimentando os copos com os olhos? O trem que o fez? Se ela consegue, então existe algo metafísico? Ou é a ciência do trem que o está fazendo? E a arte é a nossa interpretação de todos os fatos?

Uau! E com esse final esplêndido, Tarkovsky encerra seu filme…

Que filme, caros… Que filme!
Podemos dizer que Stalker é este maravilhoso triângulo entre a metafísica, o ceticismo e a poesia!
E, convenhamos, o que é uma delas sem as outras duas pontas?

Written by Felipe Yuzo

Aquela dose de alma na penumbra diária.

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