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O que me fascina e assusta em “The Invitation” (2015)

Um filme que ainda me causa arrepios.

Assisti The Invitation mais ou menos no começo desse ano, de uma forma muito despretensiosa. Achei que seria mais um filme de suspense clichê cheio de reviravoltas mirabolantes e nada sutis, devido aos últimos filmes com essa pegada que assisti. Sim, eu sou muito fã de um terror psicológico, algo que te deixe angustiado. E sim, The Invitation foi o melhor filme nesse estilo que eu assisti nesse ano.

Reassisti ao filme para escrever esse artigo e por isso o título. Porque mesmo da segunda vez, quando eu já sabia tudo o que ia acontecer, o filme ainda me pegou de surpresa e ainda pude perceber mais e mais detalhes que me fascinam e fazem com que eu ainda considere o melhor suspense que assisti nesse ano. Aqui vou analisar alguns aspectos do filme e detalhar mais – de uma forma até bem pessoal – o meu fascínio pelo horror da maravilhosa diretora Karyn Kusama.

O filme conta basicamente a história de Will (Logan Marshall-Green) e sua namorada Kira (Emayatzy Corinealdi), que vão jantar na casa da ex-mulher de Will, Eden (Tammy Blanchard), a convite da mesma. Segundo ela, seria um jantar de comemoração. Para começar, o clima que o filme constrói desde o início é sensacional. Sem diálogos expositivos – através de flashbacks e conversas que nunca nos revelam o todo- vamos pouco a pouco entendendo sobre o que está se passando no presente e o que se passou no passado dos personagens.

A atuação de Logan Marshall-Green é delicada, mas inesquecível. Ele não possui muitas falas, mas é expressivo o tempo todo. Por muitas vezes, conseguimos saber o que se passa em sua cabeça somente por um gesto ou um olhar. Outra coisa a qual me atentei da segunda vez que assisti ao filme, é a construção das personagens femininas. Karyn não coloca mulheres apenas como objetos cênicos, sendo estas – mesmo as com papeis menores – super bem construídas e de extrema importância para a narrativa.

É importante salientar também como os espaços, os limites territoriais são de extrema importância pro filme. Há praticamente só um ambiente durante a maior parte do filme: dentro de casa. O filme se passa todo durante uma noite, um jantar. O espaço da casa, que deveria ser sinônimo de conforto e abrigo, se torna cada vez mais claustrofóbico e agoniante ao decorrer do longa. Há um perigo que vem de dentro da própria casa, o que não é usual e que me assusta muito. Afinal de contas, a maioria dos filmes de Horror nos mostra monstros que vem de fora para dentro, invadindo casas e corpos. Mas se o inimigo vem de dentro? E se você está trancado em casa com o inimigo?

Acho que esse é o ponto central do filme todo. Will e Eden foram casados, tiveram um filho e agora se vêem como completos estranhos e até por vezes como inimigos. Há algo de estranho nesse jantar, nas falas do atual marido de Eden e em seus novos amigos. Eden diz que os conheceu numa espécie de culto comandada por um tipo de pastor, e eles até mostram um vídeo de uma pessoa (literalmente) morrendo, feliz por estar passando desse plano para um superior – pois é isso que prega o líder, que morrer é nada mais do que ir de um plano espiritual para um melhor. O que nos remete a como Eden está lidando com o trauma de perder um filho. Pelo menos para mim, fica claro que ela aceita e consegue conforto nas palavras do líder, pois sim, é melhor pensar que seu filho foi para um plano espiritual melhor, do que aceitar o luto e a dor de perder um filho. Pessoas reagem a perdas e à traumas de formas diferentes, e esse é o jeito que ela encontrou de seguir em frente. Mas, infelizmente, é um jeito muito perigoso.

As intenções de Eden e seu grupo (marido e amigos) é oculta até praticamente o final do filme. Conseguimos perceber que há algo de errado, principalmente se há empatia para com o personagem Will, que desconfia de algo o tempo todo. Porém, em diversos momentos eu pensei que poderia estar exagerando e na verdade a ex-mulher não tivesse nenhuma intenção ruim, pois esse é um filme que nos confunde mesmo. Nos coloca em situações de desconforto total, onde não sabemos em quem e no que acreditar. Será que Will está simplesmente paranóico? Será que Eden está tramando algo?

Essas perguntas-chave nos levam ao final do filme. O desfecho se constrói a partir da cena do jantar, até o último plano, que dura apenas alguns segundos. Plano esse que me marcou e me fez ficar pensando durante dias e dias a fio. A última cena, e último plano do filme praticamente nos mostram que nada é tão ruim que não possa piorar, e que por vezes travamos batalhas com pequenos monstros, quando na verdade os verdadeiros monstros são muito piores e muito maiores do que imaginamos. “Sutil” acho que seria a palavra perfeita para descrever o filme todo e sobretudo o seu final, pois Karyn Kusama não se utiliza de grandes recursos ou daquela história de “escrever um filme todo baseado no seu plot twist” como a maioria dos filmes com desfechos surpreendentes faz. Posso comprovar isso pois assisti o filme novamente e ele não perdeu a força para mim, muito pelo contrário. Ele continua me assombrando e me deixando chocada, do início ao fim.

 

Originalmente publicado em Mulheres no Horror.

Written by Rafaela Germano

Feminista e apaixonada por Cinema de Horror. Graduanda em Cinema e Audiovisual, atualmente realizando uma pesquisa sobre a Representação feminina e atribuições de gênero em filmes de vampiro.

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