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Crtítica: Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

O primeiro encontro no cinema entre o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas

A Warner e a DC Comics têm uma tarefa difícil para cumprir: estabelecer um universo de filmes compartilhados a partir de um único longa. Batman vs Superman é a grande aposta para realizar esse trabalho. É a partir daqui que o universo de heróis da DC se estabelece. Caminhando para lado oposto ao da Marvel/Disney, Zack Snyder aposta num tom sombrio e comprometido, o mais próximo possível, com a realidade, numa tentativa de se destacar do já foi feito pela concorrente.

A trama se desenrola a partir do filme anterior, O Homem de Aço (2013), dos danos causados na batalha de Metropolis entre General Zod (Michael Shannon) e Superman (Henry Cavill). Com milhares de pessoas afetadas pelo duelo entre os alienígenas, Batman (Ben Affleck) vai tentar parar o Homem de Aço antes que suas ações prejudiquem mais a população. Lex Luthor (Jesse Eisenberg), o bilionário que ajudou a reconstruir a cidade, surge como um opositor ao kryptoniano e fará o que for necessário para destruí-lo.

Apesar da história inchada, são personagens demais e subtramas em excesso, o embate entre os dois super-heróis é sólido. Bruce Wayne alimenta sentimentos de ódio e rancor por Superman, já que seu incidente o afetou de forma direta. Clark Kent se vê num impasse moral a respeito do Vigilante de Gotham, suas ações violentas têm prejudicado os mais pobre e vulneráveis. É essa relação conflituosa que permeia todo o filme, com alguns momentos de enfrentamento direto que deixam o clima mais denso. Luthor é o principal articulador da rusga entre os dois titãs, orquestrando um plano em que ambos são peças num tabuleiro de xadrez. Paralelamente aos conflitos que movem a trama está Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot), a heroína procura resolver seus próprios problemas, mas acaba sendo jogada para dentro do conflito.

Snyder tem algumas dificuldades para dar ritmo ao longa. Enquanto o primeiro ato é coeso, o segundo é extenso e arrastado, culminando num terceiro curto e privado de um desenvolvimento mais elaborado. Isso tonar o filme cansativo, o que ele tenta compensar com easter eggs que preenchem os momentos mais prolixos. Sua falta de sutileza para concluir alguns arcos dramáticos, talvez o mais problemático seja a relação entre Superman e Batman, pode incomodar ainda que seja coerente com a proposta. Mesmo assim, a fotografia acinzentada, dessaturada, é utilizada de forma consciente, criando belas tomadas. Seus trabalhos como diretor de videoclipes auxiliam na composição de cenas, a abertura contando a tragédia da infância de Bruce é icônica e talvez a melhor já feita. Sua experiência com cenas de ação também contribuem para ótimas lutas, sempre bem elaboradas. Hans Zimmer e Junkie XL, responsáveis pela trilha sonora, puderam reaproveitar boa parte do que foi utilizado no Homem de Aço para criar uma ligação entre os dois filmes, mas sem perder a chance de inovar. Mulher Maravilha ganhou um tema emblemático, forte e com muita presença, dificilmente será esquecido.

Henry Cavill parece sumir em determinados momentos do filme. Ainda que faça um bom trabalho dando vida ao jornalista e herói, suas poucas falas minam a expressividade de seu personagem. É a partir de seu esforço que podemos sentir suas dúvidas e o peso em ser o Superman, os julgamentos que as pessoas fazem a seu respeito o afetam mesmo que ele não assuma. Ben Affleck se destaca, com mais tempo para desenvolver o playboy e o herói mascarado, essa é uma encarnação nova para o personagem. Mais violento, quase desprovido de amarras morais, o Morcego de Gotham está velho, cansado e sem paciência com criminosos. Seu passado o assombra já que seu companheiro se foi, ao que tudo indica, morto pelo Coringa. Gal Gadot, apesar da desconfiança por parte dos fãs, foram muitas as críticas ao seu condicionamento físico, supera as expectativas e entrega uma personagem forte. Suas participações pontuais não diminuem seu peso. Jesse Eisenberg traz uma nova roupagem para Lex Luthor, afetado e cheio de manias estranhas, é um personagem que pode ser amado ou odiado pelo público, não há espaço para meio termo. Amy Adams reprisa o papel de Lois Lane, que apesar de uma atuação sóbria, o tempo que ocupa em tela não se justifica. Parece que sua personagem é inserida em alguns momentos apenas para legitimar sua escalação. Diane Lane, mãe de Clark Kent, e Jeremy Irons, o mordomo de Bruce, contribuem com atuações maduras, os dois servem como sensos morais dos heróis.

A trama que começa simples e se ramifica em outras menores e herméticas é o ponto fraco do filme. A versão estendida compensa as resoluções simplistas, além de balancear o desenvolvimento dos protagonistas. Sem muitas surpresas, o marketing entregou grande parte das reviravoltas, Batman vs Superman é um trabalho extenso, pesado, que perde fôlego, mas encontra um meio de se fazer concreto em seus objetivos. Com alguns erros e acertos, o saldo é mais positivo que negativo. Cumpre seu papel de dar bases para o universo cinematográfico compartilhado, mesmo que para isso acabe sacrificando as oportunidades de torná-lo um filme melhor.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.