, ,

Crítica: Boi Neon (2015)

Desconstruindo conceitos

Existe um fascínio pelas vaquejadas que parte de um imaginário popular e beira o glamour. É nessa consciência coletiva que residem os estereótipos que definem o universo que cerceia esse evento cultural. Boi Neon surge como ferramenta capaz de imergir nesse campo e apresentar seus personagens despidos de suas roupagens quiméricas.

O responsável pela direção do longa é Gabriel Mascaro, jovem cineasta que conseguiu se destacar com seus documentários “Um Lugar Ao Sol”, de 2009, e “Doméstica”, de 2012. Mascaro opta por uma abordagem contemplativa e despreocupada, deixando que sua câmera apenas registre a vida acontecendo. O filme não apresenta uma história convencional com início, meio e fim, o que justifica sua escolha. É usando esse recurso de apenas observar que nasce a introspecção nesse universo. Pode parecer taxativa a respeito da construção de seus protagonistas, mas assume um caráter subversivo de forma gradual.

A trama se desenvolve a partir da vida de Iremar (Juliano Cazarré), um vaqueiro de curral que viaja pelo nordeste acompanhado de Galega (Maeve Jinkings) e sua filha Geise (Samya de Lavor). Iremar tem o sonho de tornar-se estilista. Ele busca entre suas viagens panos e manequins velhos para criar seus próprios modelos e suprir a necessidade de fuga de seu ambiente de trabalho. Sem grandes surpresas, o filme impõe seu próprio ritmo estilizado, planos longos e diálogos que fornecem perspectivas contrastantes sem serem expositivos desnecessariamente, utilizando contraposições da maneira como os enxergam o mundo de modo subjetivo. É das conversas entre os personagens que surgem algumas reflexões que se espelham, de forma indireta e sútil, o fascínio pelas vaquejadas. Isso é emulado em toda ornamentação dos eventos, em oposição ao trabalho duro e pouco deslumbrante que as sustentam quase imperceptivelmente.

O longa ainda oferece algumas divergências que não se materializam verbalizando-as, mas na presença de figuras dissonantes. Esse cuidado em não tornar aquilo que se deseja representar didático demais, objetivo excessivamente ou meramente simplista, eleva a produção e proporciona um trabalho mais elaborado. Isso se confirma nas rimas visuais que relacionam o sexo com o animal, representando um aspecto inerente aos seres vivos. Apoia-se também na vida pouco interessante da elite que se coloca em tela de maneira pouco apaixonada e em menor proporção. Sem ser categórico, Mascaro ainda estimula a quebra de alguns conceitos previamente estabelecidos no imaginário popular, rejeitando a obrigatoriedade de atender a expectativa do público. Iremar tem sua orientação sexual inexplorada até o último momento do filme, ponto em que o diretor desmonta e reorganiza a visão de seu público para o personagem. Isso se repete com os coadjuvantes que revelam camadas e os tornam complexos e profundos.

O elenco como um todo entrega performances sem exageros ou maneirismos. O trabalho emana naturalidade e se insere sem estranheza num ambiente tão próximo do real quanto possível. O maior destaque é de Cazarré, que constrói Iremar de maneira simples e dedicada, conciliando bem a aspereza que o trabalho do personagem exige, mas mantendo vivas as características que o distanciam daquele ambiente.

Boi Neon funciona como fotografia do mundo das vaquejadas, livre de conceitos estabelecidos no imaginário coletivo e como ferramenta de aproximação de universos particulares que sustentam esse ambiente. Vagaroso, porém conciso, trata-se de um recorte bem elaborado e honesto.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.