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Fala Comigo

O afeto transcendendo as expectativas com relação ao futuro das relações

Dentre os significados da palavra “afeto” encontrados no dicionário, “admiração” é uma delas. Pessoas podem se admirar independentemente de estarem ou não apaixonadas, e mesmo que em Fala Comigo, nos deparemos com uma relação amorosa entre os protagonistas, o afeto e a admiração que esses personagens sentem um pelo outro estão à frente de qualquer coisa.

Diogo (Tom Karabachian) é um adolescente de 17 anos, que gosta de ligar para as pacientes da sua mãe psicanalista chamada Clarice, interpretada por Denise Fraga, enquanto se masturba ao telefone. Entre diversas mulheres que estão na lista, está Ângela (Karine Teles), uma mulher de 43 anos que acaba de ser abandonada pelo marido, Otávio. Diogo e Ângela iniciam um romance e precisarão driblar preconceitos com relação a diferença de idade e a total desaprovação dos pais do jovem.

Esse é o primeiro filme dirigido por Felipe Sholl, conhecido pelo seu trabalho como roteirista nos longas Histórias que Só Existem Quando Lembradas (2011) e Campo Grande (2015).

O primeiro contato entre Diogo e Ângela, o que tem de incomum, tem de curioso. A mulher recém separada do marido, parece ser a preferida do adolescente. Esses dois personagens tão diferentes, vivem em mundos particulares e parecem se complementar mesmo sem nem se conhecerem pessoalmente. Enquanto Diogo ouve a voz de Ângela que serve como forma de excitação para que ele se masturbe, a mulher pensa estar recebendo ligações do ex-marido. Ela é a única que permanece lá com Diogo (ainda que não saiba que se trata do filho de sua psicanalista) falando de seu dia e das pendencias que precisam ser resolvidas na casa. Diogo por outro lado tem o que precisa: uma voz que fale com ele para que ela possa exercer seu fetiche. Já podemos traçar desse momento incomum, o primeiro contato desses dois personagens que irão se relacionar e que terão um ao outro para se consolar.

Depois desse primeiro contato, é feito um paralelo entre o universo de Ângela e o de Diogo. Na hora do jantar, o jovem come enquanto lê e ouve música pelo fone de ouvido. Sua irmã, Mariana (Anita Ferraz), insiste em dizer que sente dores que claramente não são verdade. Tudo parece se tratar mais para um pedido de atenção, coisa que a família não consegue dar no momento. Aliás é interessante apontar que os personagens ali estão numa dinâmica como se quisessem constantemente uma aproximação e diálogo, mas que talvez por uma rotina que já caiu no automático, não conseguem mais estabelecer uma comunicação. Marcos (Emílio de Mello), marido de Clarice, vive um momento complicado com a esposa, também pela falta de diálogo, deixando tudo ainda mais irônico quando lembramos da profissão de Clarice.

Felizmente, há alguns momentos de alívio na casa de Diogo, no que diz respeito a comunicação. Percebemos uma relação já mais próxima do adolescente com Mariana, a única para quem Diogo parece se sentir mais à vontade para conversar.

Ângela permanece em seu apartamento sempre à espera de seu marido. Ela fuma um cigarro, prepara um jantar e espera por Otávio que nunca chega. O universo da personagem é mais duro e o silêncio é predominante. A personagem que tem um histórico de tentativa de suicídio, liga para Diogo (pensando ser Otávio) para se despedir. A tentativa de tirar a própria vida sela o encontro desses dois mundo tomados pela falta de diálogo e afeto.

Visualmente o filme expressa muito bem o mundo desses personagens. De uma forma geral, a opção por closes e close ups, caracteriza Fala Comigo como um filme que busca focar na psique de seus personagens e nos seus sentimentos. Felipe Sholl citou John Cassavetes como uma de suas influências e para quem conhece o cinema do diretor americano, sabe da importância da câmera na forma de explorar seus personagens.

Além disso, o ambiente do apartamento de Diogo e do apartamento de Ângela, também trazem pontos que valem a pena uma observação quando se fala do aspecto estético do filme. Diogo é às vezes enquadrado em seu apartamento em um plano inteiro, bem afastado da câmera. O mesmo acontece no enquadramento da sala da residência, que às vezes é vista quase que toda, dando uma boa dimensão do seu espaço. E é exatamente isso o que a câmera parece querer ressaltar: os espaços. Sejam eles uma extensão das lacunas existente entre os membros da famílias, por conta da falta de diálogo, ou o vazio do lugar em que o afeto não foi capaz de preencher. Um bloqueio na comunicação também toma forma no enquadramento em uma cena em que Diogo está no quarto e a câmera está do lado de fora do cômodo, enquadrando também a sala e uma parede no meio.

Já no apartamento de Ângela, temos uma noção bem menor do espaço do lugar. A câmera parece abusar mais dos enquadramentos que fecham no rosto dos atores, ou na altura do tórax para cima, evitando mostrar espaços na casa. Isso fica mais evidente quando a relação de Diogo e Ângela já está estabelecida e os personagens estão vivendo um romance, o que também ecoa na ideia de aconchego e acolhimento na relação dos dois protagonistas.

A questão da idade é algo que parece preocupar Clarice e Guilherme (Daniel Rangel), amigo de Diogo. Ou pelo menos é o que parece. O roteiro de Fala Comigo permite também uma leitura mais a fundo de outras questões que podem estar por trás da reprovação do relacionamento de Diogo e Ângela. Questões essas que podem estar além do fator da diferença de idade. Estaria Guilherme na  verdade enciumado com o relacionamento do amigo por conta de uma experiência mais íntima que teve com o mesmo? Clarice no fundo não teria ciúmes por estar sendo deixada de lado ao  ver o filho tendo mais confiança e abertura para conversar com outra mulher que não seja ela? Principalmente pela personagem ser psicanalista e isso ser talvez até um insulto para ela, já que com toda sua experiência e estudo, não conseguiu fazer com que ela se aproximasse mais do próprio filho e do marido, cuja relação caiu na rotina.

Além disso, o filme está acima de qualquer ideia de um romance que beirasse a um melodrama cheio de exageros. Por mais que tenhamos dois personagens que queiram ficar juntos contra a vontade de todos (com exceção de Mariana, que apoia o irmão), cenas mais dramáticas são realizadas de forma mais amena e eficaz. Mesmo em um suposto final feliz, Fala Comigo não nos deixa em uma situação de total conforto, deixando uma leve incerteza com relação ao futuro do relacionamento de Diogo e Ângela, que não se importa de ser respondido no filme. Questionamentos como a maturidade de Diogo e as condições emocionais de Ângela para ter um relação num momento tão delicado de sua vida,  acabam que ficando em segundo plano na narrativa e esse é um dos pontos altos do filme, que traz como tema principal apenas a busca pelo afeto desses dois personagens.

O longa está disponível na Netflix!

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.