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O Brilho Eterno de Uma Mente Criativa

Documentário da Netflix estuda profundamente dois gênios da comédia

Se a inquietação é um dos principais combustíveis para o tão enigmático processo da criação artística, não é nenhum exagero afirmar que Andy Kaufman foi a maior e mais incandescente das faíscas da comédia em todos os tempos. Com talento para o absurdo, Kaufman começou sua breve e intensa carreira com apresentações em espeluncas frequentadas quase que em sua maioria por um público que já naquela época não o compreendia. Em um desses shows, o renomado empresário George Shapiro estava na plateia. Mesmo estarrecido com o que viu no palco, enxergou potencial em estado bruto e, na vã esperança de lapidar o comediante esquisitão, o contratou.

O sucesso não demorou a chegar. Após algumas apresentações bem-sucedidas no programa Saturday Night Live, Kaufman foi convidado a integrar o elenco da série de TV “Taxi”, exibida pela rede ABC entre 1978 e 1983. Repleto de maneirismos e de voz estridente, o personagem Latka – ou o Homem Estrangeiro – conquistou a audiência com o bordão “Thank you very much” e fizeram de seu intérprete um homem famoso na América. Mas nada disso era o suficiente para ele.

Cansado da castração criativa do formato televisivo e um outsider no showbusiness, Kaufman subverteu os clichês da comédia com sketches desenvolvidas não para que fossem apenas engraçadas, mas para que provocassem as mais diversas reações no público, nem que para isso fosse necessário romper qualquer limite entre a ficção e a realidade.

Para se ter uma ideia da genialidade corrosiva e surreal de suas apresentações, Kaufman lotou um teatro e, ao invés de sucumbir aos pedidos ensandecidos da plateia por uma imitação de Latka, leu vários capítulos do livro “O Grande Gatsby”. Em outra ocasião, Andy Kaufman agendou um show e mandou em seu lugar mais um personagem célebre de seu arsenal, o cantor de boates preconceituoso e cheio de pompa Tony Clifton. Para confundir ainda mais o público, ás vezes Kaufman recorria ao seu parceiro e roteirista Bob Zmuda para fazer os shows como Clifton e depois aparecia na plateia para arrumar briga. Na mitologia criada pelos dois,Tony Clifton e Andy Kaufman eram inimigos declarados e frequentemente usavam a mídia para trocar insultos.

Enquanto George Shapiro enlouquecia com as ideias cada vez mais mirabolantes de seu contratado, Kaufman no ápice da fama anunciou sua aposentadoria da comédia para se tornar lutador de luta livre. Autoproclamado campeão intergêneros, despertou a ira da opinião pública ao lutar somente contra mulheres em eventos e programas de televisão. Foi desafiado pelo campeão mundial da categoria Jerry “The King” Lawler e o combate ganhou contornos dramáticos, sendo transmitido em rede nacional para uma audiência ávida pela batalha entre o bem e o mal. Tudo parte da sketch mais ousada de sua carreira. Quando morreu aos 35 anos em decorrência de câncer no pulmão, familiares e amigos acharam que se tratava de mais uma piada infame.

Em 1999 o premiado diretor Milos Forman (Um Estranho no Ninho) estava incumbido de levar ao cinema a biografia de Andy Kaufman no filme “O Mundo de Andy”. Influenciado pelo trabalho e fã confesso do comediante, Jim Carrey abriu mão do orgulho inerente ao status de ator de sucesso e realizou testes para interpretar o papel que mudaria a sua vida para sempre.

A produtora Universal contratou uma equipe formada por Bob Zmuda e Lynne Margulies (ex-namorada de Kaufman) para comandar um documentário sobre os bastidores das filmagens e acompanhar o processo de transformação de Jim em Andy.

De Marlon Brando a Daniel Day-Lewis, passando por Robert De Niro e Heath Leadger, são lendários os métodos utilizados pelos atores nos sets de filmagens para dar vida aos seus personagens, mas nunca foi tão perturbador testemunhar o processo todo.

O resultado foi tão perturbador que as imagens captadas por Zmuda e Margulies tiveram a veiculação proibida pela Universal por quase duas décadas. O material foi finalmente liberado há uns três anos atrás e é o cerne para “Jim e Andy: The Great Beyond (2017)”. O documentário dirigido por Chris Smith e produzido por Spike Jonze está disponível na Netflix e desnuda o caos instaurado que foi a imersão em tempo integral de Jim Carrey no corpo, alma e personalidade de Andy Kaufman e claro, Tony Clifton! As cenas dele interagindo com elenco e equipe técnica são estarrecedoras. Em determinado momento, Milos Forman suplica a Clifton para que faça ao menos uma cena conforme o que está escrito no roteiro. Em outro, a outrora ensaiada briga de Andy com Jerry Lawler é revivida no set de filmagem e Carrey se machuca de verdade. Aliás, durante todo o filme fica difícil discernir o que é ou não real no ambiente de loucura que tomou conta do set de filmagens.

Além de funcionar como um riquíssimo behind the scenes, o documentário brilha ao inserir à narrativa uma espécie de biografia dos dois artistas com tantos tormentos compartilhados em uma complexa dinâmica mestre e pupilo, além de entrevista recente com o próprio Jim Carrey, o mais novo eremita favorito de Hollywood. Entre falas filosóficas e repletas de subtexto sobre fama, dinheiro, depressão e morte, ele revela com olhar profundamente triste para a câmera o quão deslocado se sentiu por ter de voltar à própria pele após o término das filmagens de “O Mundo de Andy”.

O astro que na década de 1990 emplacou bilheterias arrebatadoras com filmes de comédia pastelão como “Ace Ventura – Um Detetive Diferente (1994)” e “O Máskara (1994)” e provou grande talento dramático em “O Show de Truman (1998)” e “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças (2004)”, revela que decidiu abrir mão de seu verdadeiro eu em detrimento da pessoa efusiva e alegre que os outros queriam que ele fosse. Tal qual um Jekyll e Hyde ás avessas, Carrey criou, segundo ele mesmo, um “monstro bonito e carismático para ser amado por todos”, mas que no decorrer do tempo ele não conseguiu mais domar.

A imprensa especulou exaustivamente os motivos que levaram o ator ao exílio voluntário do cinema e eventos sociais. Mas “o que acontece quando você realizou todos os seus sonhos e mesmo assim continua infeliz?”,Jim Carrey indaga a si mesmo em de maneira amarga em uma cena de destruir o coração.  Hoje livre da necessidade de ostentar um simulacro de existência agradável, Jim Carrey abraça o sofrimento e deixa aflorar a persona obscura que escondeu dos fãs por tantos anos.

“Jim e Andy: The Great Beyond” é dessas obras que após assistida reverbera na mente por muito tempo. Um estudo profundo sobre a genialidade da criação e seus efeitos colaterais no ser humano, além de um belíssimo tributo às carreiras de Kaufman e Carrey.

 

 

Título Original: Jim and Andy: The Great Beyond
Diretor: Chris Smith
Ano: 2017
País: Estados Unidos

 

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.

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