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Reasons To See – Doentes de Amor

A temporada de premiações da indústria do cinema começou oficialmente no último domingo com a cerimônia de entrega do Globo de Ouro. Entre os principais vencedores da noite, A Forma da Água e Três Anúncios para um Crime se estabeleceram como fortes concorrentes na corrida pelo Oscar. As próximas semanas prometem esquentar ainda mais a disputa, quando os sindicatos das principais categorias anunciam seus escolhidos. Enquanto alguns títulos recebem maior atenção da imprensa e cinéfilos do mundo todo, outros correm por fora e devem (esperamos) surpreender a todos no dia 23 de janeiro, data em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revela seus indicados.

É o caso de Doentes de Amor (The Big Sick), comédia dramática escrita por Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani e inspirada nas experiências reais do casal em um relacionamento cujas barreiras culturais são superadas por uma grave e inesperada doença. Na melhor representação da subversão do velho clichê  ¨a vida imita a arte¨, Kumail, conhecido por sua atuação no seriado Silicon Valley,  interpreta a si mesmo, um jovem adulto muçulmano de origem paquistanesa que mora em Chicago e aspira o sucesso como comediante de stand up, enquanto trabalha como motorista de Uber para se manter financeiramente. Em uma de suas apresentações, ele conhece Emily (aqui interpretada por Zoe Kazan) e entre cantadas ruins e uma quantidade generosa de drinks, os dois engatam uma relação descompromissada no início, mas que ganha contornos inevitavelmente mais sérios.

Kumail não quer um casamento arranjado e nem ser advogado como regem as tradições de seus familiares paquistaneses, mas também teme desapontá-los por seu estilo de vida Ocidental. Mesmo quando a mãe promove mais um entre tantos jantares para apresentar a ele futuras pretendentes ou o questiona sobre as provas da faculdade, Kumail se mostra evasivo e evita ao máximo demonstrar desobediência. Dividido pelas incertezas, ele decide não assumir o namoro com Emily, o que causa o término.

Quando Emily fica doente e entra em coma, Kumail se vê forçado a conviver com os pais dela e acima de tudo, com os sentimentos contraditórios dele mesmo. Destaque para a atuação poderosíssima de Holly Hunter como a mãe que condena o ex-namorado por todo o sofrimento causado à sua filha (não surpreende uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante) e ao ótimo Ray Romano como um pai meio neurótico e parcialmente solidário a Kumail.

Ao contrário dos artifícios exaustivamente utilizados por outras produções do gênero, em Doentes de Amor não há sentimentalismo ou situações criadas com o único propósito de arrancar lágrimas à força do espectador. Nem precisa. Por se tratar de uma comédia que se baseia na realidade, o roteiro aborda a dinâmica de um relacionamento amoroso sem floreios, de maneira tortuosa e deliciosamente natural, o que por si só é capaz de gerar as mais variadas emoções. Nada no longa dirigido por Michael Showalter e produzido pelo onipresente Judd Apatow é idealizado ou condescendente, nem mesmo as diferenças culturais explícitas entre os dois núcleos familiares, tratados aqui com sinceridade e leveza.

Doentes de Amor provoca reflexão ao desmembrar as camadas do cotidiano de um relacionamento sem grandes reviravoltas ou perseguições desenfreadas pelas ruas da cidade para impedir a pessoa amada de embarcar no avião. Um sopro de originalidade e singeleza capaz de comover e fazer rir na mesma medida.

Título Original: The Big Sick
Diretor: Michael Showalter
Ano: 2017
País: Estados Unidos

 

 

 

 

 

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.