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Filmes Para Ouvir – Patti Smith : Dream of Life

O labirinto existencial da memória

Em meio a uma colagem de imagens que remetem ao imaginário criado por seu cancioneiro, como a manada de cavalos selvagens da clássica “ Horses” e paisagens suburbanas, a voz em off de Patti Smith nos avisa que “A vida é uma aventura de nosso próprio desejo, interceptada pelo destino e por uma série de acidentes de sorte e azar”.  Em menos de quatro minutos, ela sintetiza sua biografia desde seu nascimento em um dia de nevasca em Chicago até a morte do marido, Fred “Sonic” Smith e de seu irmão Todd apenas um mês depois. É mais do que suficiente para entender que não estamos diante de um documentário convencional.

Dirigido por Steven Sebring (P.O.V), Patti Smith: Dream of Life não se atém à estrutura tradicional do formato.  As imagens captadas em película entre 1995 e 2006 proporcionam um passeio intimista pelos eventos que moldaram a vida e a carreira da cantora, poetisa e pintora em um fluxo de memórias não-linear guiado por ela mesma. A opção pela fotografia em preto e branco durante quase todo o tempo e a montagem idílica ajudam a reforçar a atemporalidade do que é mostrado na tela. Estamos diante de alguém real.

As influências que ajudaram a fazer dela a imensa artista que é são apresentadas de maneira tão singela que é quase surreal. Em um pequeno quarto que poderia muito bem pertencer a um acumulador compulsivo, Patti guarda uma memorabilia invejável. Um vestido que usou na infância, roupas dos filhos, livros de gente como William Blake, Walter Witman e Arthur Rimbaud, as cinzas de Robert Mapplethorpe, uma porção de discos e o melhor de todos:  “Bo”, um violão Gibson de 1931 que ganhou de Sam Shepard e no qual Bob Dylan tocou algumas canções. Tudo neste cômodo transporta a uma cápsula do tempo em homenagem aos agentes transformadores de sua vida. Patti Smith fez parte da efervescente cena artística de Nova York no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Ao mudar-se para a cidade conheceu Robert Mapplethorpe, gênio transgressor da fotografia que fez dela sua musa e amiga até sua morte em decorrência da AIDS, em 1991. Moraram juntos no Chelsea Hotel. Fizeram amizade com Allen Ginsberg e William Burroughs. No CBGB entrou para a história como uma das precursoras do punk ao fazer daquele mítico palco receptáculo para sua música mordaz. Aliás, em determinado momento do filme, Patti afirma nunca ter imaginado que o rock seria o veículo para sua poesia. Ela recitava Sylvia Plath e Lindsay Rachel e, ao escrever suas letras, desenhava palavras pensando mais na beleza de juntá-las do que em significados.

O filme disseca outras camadas da personalidade de Patti Smith. Como a reunião em família com seus pais e a cadela Sheba. Entre conversas triviais e lembranças da construção do amplo jardim, a dinâmica afetiva daquele ambiente ajuda a desmistificar a artista e cria um vínculo de empatia com o espectador. Em outra cena, já no palco, Patti entoa palavras de ordem durante um cover de “My Generation” do The Who. A performance cheia de energia é sobreposta por outra imagem dela em seu ateliê pintando ao som de música clássica. A atuação como ativista política contra George W. Bush e o belicismo americano ou o quão parecido com o pai seu filho Jackson fica ao assumir o posto de guitarrista de sua banda de apoio. São esses vaivéns ininterruptos que ajudam a montar o quebra-cabeça que é o processo criativo de Patti Smith para além da figura de ícone do rock.

Patti Smith: Dream of Life faz da poesia recurso narrativo para prestar tributo à existência humana e principalmente à memória, além de construir um retrato sensível e merecido de uma das artistas mais importantes de todos os tempos.

 

 

Título Original –  Patti Smith: Dream of Life

Diretor: Steven Sebring

Ano: 2008

País: Estados Unidos

Written by Danilo Carbone

Jornalista, cinéfilo e fã de Iggy Pop, Danilo acredita que o cinema e a música são artes complementares capazes de mudar o mundo e as pessoas.