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Crítica – Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo

A valorização da humanidade não por seu fim, mas por sua singularidade

Por Rennan A. Julio

 Apesar de fazer parte de um dos gêneros mais simples, Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo não é simplesmente uma comédia romântica (ou dramédia romântica). É, no entanto, prova de que uma ideia simples em um pano de fundo desgastado, a solidão perante o fim do mundo, pode ser uma chance de sobrepor a aceitação ao desespero.

Dodge, após ser deixado pela mulher, tenta continuar normalmente com sua vida até que as três semanas que separam a Terra de seu fim acabem. A naturalidade exposta pelo personagem pode ser tão agoniante quanto o medo exacerbado que encontramos em outros filmes com esta mesma temática (a cena da academia explora muito bem essa sensação). Ao mesmo tempo em que Dodge vive de maneira simples, o vendedor de seguros procura alguém com quem dividir seu tempo, mesmo que seja para acompanhá-lo no sofá ao assistir televisão.

Então que, por acaso, aparece chorando em sua janela, Penny (Keira Knightley, sem ser caricata ou forçada, dá ao filme a medida romântica e aventureira para a relação dos protagonistas). Ao descobrir que a garota havia guardado sua correspondência por três anos, Dodge encontra uma carta que sua antiga paixão de colegial havia enviado há mais de três meses, onde estava escrito que ela ainda o amava e queria reencontrá-lo. Por arrependimento, Penny sente-se na obrigação de levá-lo ao encontro de sua amada. Após o aumento de saques e violência nas ruas, os dois iniciam sua viagem ao interior dos Estados Unidos.

A obra começa a carregar o tom dos filmes de estrada, onde situações são vividas, pessoas são conhecidas e a relação torna-se, consequentemente, apaixonante.

Muito bem estruturado, bonito e com um ponto de vista interessante, o filme, assim como em Melancolia (uma das obras-primas de Lars Von Trier), nos mostra a indiferença ao geral, enquanto que o pessoal é creditado como protagonista, por exemplo, os medos de Dodge de morrer sozinho, de sua mãe morrer sozinha, de sua ex-mulher viver com quem não amava e o de Penny em não reencontrar sua família. A ideia imposta é a de que o fim do mundo não é generalizado, mas sim composto de singulares seres que descobrirão suas verdadeiras emoções quando o fim estiver próximo. E a naturalidade é possível e tátil, pois a frieza é característica humana, também.

Devo destacar que Steve Carell, mais uma vez, prova sua imensa capacidade de interpretar um personagem dramático com um toque refinadíssimo, algo que já poderia ser notado de maneira fenomenal em Pequena Miss Sunshine e, com menos força, mas com muita sutileza em Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada.

 O elenco de apoio também é prova de que a toada do cinema americano já não é mais a mesma, Adam Brody (o eterno ídolo indie adolescente) ganha espaço novamente, T.J. Miller e Rob Corddry exagerados dão humor óbvio à trama, Rob Huedel exemplifica o desespero em poucas palavras, etc.

A leveza é dificilmente bem explorada quando o cinema trata sobre o apocalipse, mas, aparentemente, Lorene Scafaria (como havia feito em Uma Noite de Amor e Música) prefere dar prioridade às experiências pessoais e suas trilhas sonoras.

Written by Guilherme Antunes

Acadêmico de História e um apaixonado pelas coisas da vida.

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