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A Morte Cansada de Fritz Lang

A humanização da figura da morte

Dirigido por Fritz Lang, A Morte Cansada foi lançado seis anos antes da obra mais famosa do diretor, Metrópolis (1927). O filme, considerado a primeira obra do cineasta a fazer sucesso internacionalmente, influenciou diversos outros diretores conhecidos como Luis Buñuel, Ingmar Bergman (mais especificamente no filme “O Sétimo Selo” de 1957) e Michael Powell, além de ser um dos filmes favoritos de Alfred Hitchcock. Como é comum acontecer com alguns filmes, A Morte Cansada não foi um sucesso logo quando foi lançado, ganhando seu reconhecimento e sucesso comercial só depois que foi relançado em outros países da Europa.

A sinopse é sobre um jovem casal que viaja de carruagem até um vilarejo, quando são surpreendidos por um estranho homem vestido de preto que embarca junto com eles. Chegando em uma taverna, o casal resolve beber alguma coisa e se deparam novamente com o estranho  homem. Quando a mulher resolve sair por um momento e logo retorna, percebe que seu noivo desapareceu. Ao perguntar para algumas pessoas do vilarejo se alguém viu o seu noivo, descobre que o mesmo deixou a taverna em companhia do estranho homem. Decidida a procurá-lo, ela descobre que seu amado foi levado pela morte (o senhor de preto), uma vez que a hora de seu noivo chegou. Desesperada, a mulher tenta negociar com a morte para ter seu noivo de volta. A morte então propõe um desafio para a mulher em que ela terá que voltar em três períodos do tempo, em três países diferentes (Arábia, Itália e China). Em cada lugar ela viverá outra vida junto com seu noivo e terá três tentativas para livrá-lo da morte. Se conseguir, terá seu noivo de volta em sua vida atual

A Morte Cansada traz o questionamento e a resposta sobre a força do amor e sua capacidade de vencer a morte. Vale notar que o casal principal não tem nome, representando talvez a própria vida, porém materializada nos personagens do homem e da mulher. Mesmo com o lado voltado para o romance, o filme não cai em nada excessivamente melodramático. Já como um filme do expressionismo alemão, o design de produção já é mais contido e sem os excessos que existem em O Gabinete do Dr. Caligari, embora no segundo filme, o tema de caráter psíquico faça mais sentido na escolha do design de produção mais marcante.

Já as cruzes e o próprio cemitério são inevitáveis de aparecerem na tela e são muito bem fotografados. Engana-se quem imagina que o filme procura vagar pelo gênero do terror, por conta dos temas e símbolos abordados. Lang não deixa o personagem da morte cair em uma suposta vilania, pelo contrário, aqui a morte (interpretada por Bernhard Goetzke) ganha uma seriedade e respeito que dão ao personagem um patamar bem evoluído. A própria morte em si ganha uma dimensão curiosa, já que como sugere o título, ela mesma se encontra cansada de seu trabalho e de ser odiada pela humanidade, já que está obedecendo ordens divinas. Considerando seu trabalho uma maldição, a morte explica para a mulher em uma cena, que está cansada de ver o sofrimento da humanidade.

Os cenários são uma atração à parte. Como já mencionado acima, a força expressionista do filme é mais contida e se mantém em alguns objetos retorcidos na tela, como árvores, muros e nas atuações dos atores. Ainda sobre o cenário, chama a atenção um muro construído pela morte que rodeia um pedaço de terra comprado pela própria personagem e que serve para abrigar as novas almas que são levadas dessa vida. Alguns planos colocam os personagens diante desse muro que nitidamente se impõe a eles, na tentativa de encontrar um portão de acesso ao lugar. A tentativa é em vão, já que apenas a morte sabe onde fica a entrada. Isso de certa forma faz uma alusão a nossa tentativa de tentar entender aspectos da vida como, claro, a própria ideia de morrer. Em uma cena, Goetzke é enquadrado de costas para o muro, onde aparece centralizado no mesmo. Isso reforça o equilíbrio e a sabedoria de seu personagem perante sua missão. A morte aqui ganha a sabedoria e a consciência do mundo que a cerca,  que estão acima de qualquer clichê, caracterizando assim sua existência como algo natural.

Efeitos de sobreposição e os cenários que representam os três diferentes países em que a jovem mulher precisa salvar seu noivo, também mostram um capricho notório. Destaque para a sala de velas acessas onde a morte explica que cada chama da vela ali presente, representa a vida de alguém. O personagem mostra para a mulher o momento em que chega o fim da vida de um bebê. Um efeito de sobreposição preciso “encaixa” a imagem da morte com uma outra imagem sua segurando um bebê, dando a ideia de que a criança surgiu do nada nas mãos da personagem. Antes disso vemos a chama da vela que aparece flutuado antes de se transformar no bebê, simbolizando sua vida.

A inspiração para o filme veio de um conto da mitologia indiana sobre Sati Savitri, mas também de uma experiência pessoal de Lang. O cineasta, ainda criança, sofreu com uma forte febre e teria visto um homem de preto usando um chapéu através de uma janela entreaberta. Quando já havia se curado, “a imagem da morte que traz uma mistura de afeto e horror, junto com a experiência mística”, nunca saíram da cabeça de Lang e acompanhou os temas de seus filmes.

Sendo assim, fica inegável como essa experiência influenciou o cineasta em A Morte Cansada, que merece ser conferido por aqueles que ainda não haviam ouvido falar na obra desse que foi um dos grandes diretores do cinema.

 

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.