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O Coração Delator

Adaptação de Edgar Allan Poe e o expressionismo alemão

“Esta é uma história relatada por um homem louco, e apresentada da forma como os acontecimentos foram registrados em sua mente distorcida”.

Assim se inicia o primeiro intertítulo do curta O Coração Delator (The Tell-Tale Heart, 1928), curta metragem mudo dirigido nos EUA por Charles Klein e Leon Shamroy (não creditado), adaptado do conto homônimo de Edgar Allan Poe. Com adaptações mais conhecidas do público como O Corvo e A Queda da Casa de Usher, vale a pena conhecer mais essa obra que você pode conferir no final do texto. Infelizmente o curta mão possui intertítulos, mas quem já conhece o conto e por conta do próprio cinema mudo privilegiar a forma de se contar histórias através das imagens, não fica difícil de compreender a narrativa.

Como o próprio intertítulo mencionado no início, temos toda a narrativa do ponto de vista do protagonista, cuja mente está distorcida. O homem planeja matar um senhor que dorme no quarto, cujo olho perturba o protagonista de tal forma, que ele prefere se livrar do pobre senhor.

O curta não poderia ter deixado de lado o estilo que mais acolheria a sinopse do conto: o expressionismo alemão. Surgindo primeiro nas artes plásticas para só depois chegar ao cinema, esse movimento foi um grande precursor do cinema de horror. A Alemanha foi o berço desse estio tão marcante que começou no cinema com o filme O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920).

Conhecido por externar os sentimentos e sensações dos personagens através dos cenários e das expressões dos atores, temos assim a representação de uma realidade que não busca ser objetiva.

E é exatamente isso o que podemos notar ao ver o curta. O uso de sombras distorcidas e uma expressão de angústia e loucura do personagem principal marcam muito a plasticidade do curta, que também faz o uso de uma fotografia que privilegia pouca luz, mesmo porque parte da história se passa à noite, quando a vítima do homem insano está dormindo.

Passado inteiro dentro de um quarto, a fotografia também consegue diminuir a sensação de espaço do lugar com a escuridão, como forma de representar uma mente encurralada e tomada pelas sombras, com poucas chances de se iluminar. Quando conseguimos ter uma ideia melhor do quarto, já é de dia. A chegada de dois detetives reforça o momento como um vislumbre de realidade, porém sem nunca deixar de representar o psicológico do protagonista nas portas, janelas e formas dos cenários completamente disformes.

Se o conto de Edgar Allan Poe consegue mergulhar fundo na insanidade de seu personagem, o filme faz uma interessante representação do conto ao usar o expressionismo alemão como forma de alcançar o mesmo efeito no cinema. Confira!

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.