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Me Chame Pelo Seu Nome

A celebração do amor em uma narrativa madura e refinada

Me Chame Pelo Seu Nome tem se tornado um grande favorito nos festivais por onde passa, acumulando quarenta prêmios. Dentre as três indicações no Globo de Ouro, o longa infelizmente não levou nenhuma, restando agora as possíveis indicações ao Oscar 2018. O longa é uma adaptação do livro homônimo escrito por André Aciman e que já está disponível traduzido no Brasil.

Na Itália no verão de 1983, conhecemos Elio (Timothée Chalamet), um jovem de dezessete anos que vive em uma grande casa com seus pais, um professor de arqueologia (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). Quando Oliver (Armie Hammer) chega na casa para auxiliar o pai de Elio em suas pesquisas arqueológicas, o jovem se vê diante de sentimentos e sensações nunca vivenciados antes e que irão marcar para sempre sua vida.

Romances em filmes LGBT, já foram contados de diversas formas e através de personagens o mais variados possível. Muitos filmes acabam caindo em alguns elementos que já foram bastante usados em diversos roteiros, geralmente envolvendo uma grande culpa por parte de pelo menos um dos personagens por não conseguir lidar com sua própria homossexualidade, ou conflitos externos como preconceito, rejeição de pessoas próximas, como familiares, que assumem o papel de antagonistas na narrativa e na vida do protagonista. Não que essa estrutura seja ruim, mas quando nos deparamos com algo diferente, é sempre interessante nos abrirmos para novas formas de se contar uma história.

O filme não possui um esquema clássico de narrativa com primeiro, segundo e terceiro atos bem definidos e claro, um conflito estabelecido. Isso pode incomodar muita gente e fazer com que  filme seja rotulado como “parado” demais. Além disso, existe uma atmosfera de idealização no romance vivido pelos protagonistas que pode incomodar o espectador pouco familiarizado com essa característica. Por outro lado, fica o aprendizado para o próprio público, que pode perceber como o cinema é mesmo diverso. Sem contar que o carisma dos personagens, os subtextos e o refinamento com que toda a narrativa se desenvolve, supera qualquer estranhamento que fuja de uma narrativa convencional.

O que mais se sobressai no roteiro é a dinâmica da convivência entre Elio e Oliver durante as seis semanas em que terão que conviver um com o outro. O interesse mútuo entre os dois personagens ocorre quase que de forma instantânea, porém, o espectador não irá ser contemplado com uma relação amorosa logo em um primeiro momento. Tudo é mais demorado e exigirá mais do espectador, que será praticamente desafiado a interpretar através de subtextos de ações e palavras não ditas, os receios e inseguranças de Elio e Oliver, que impedem que ambos se entreguem de uma vez ao que estão sentindo.

Com a complexidade do roteiro que apresenta personagens tão cheios de dimensão, impossível não apontar as atuações de Armie Hammer e em especial Timothée Chalamet. Os atores que confessaram em algumas entrevistas que se sentiram desafiados e até inseguros ao interpretar seus personagens por conta do refinamento do roteiro, não deixam em nenhum momento isso transparecer na tela. A química entre os dois atores é incrível e muito natural.

A tensão sexual durante quase toda a narrativa e a sensação de sentimentos não exteriorizados em um primeiro momento, são representados na fotografia através do enquadramento dos dois personagens. Às vezes Oliver é enquadrado em segundo plano, enquanto Elio aparece em primeiro. O focar e desfocar da câmera que alterna entre primeiro e segundo plano e consequentemente entre esses personagens, parece conectá-los ao mesmo tempo em que os afasta.

A fotografia e o design de produção, reforçam as cores quentes, além do próprio lugar onde se passa a história, ser um atrativo a parte. É possível captar nisso tudo, o calor do verão que evoca um erotismo que é reforçado com os personagens sem camisa enquanto tomam banho na piscina ou tomam sol. Tudo claro, sem ser algo já dado para o espetador, criando mais uma sugestão graças a sutileza da direção de Luca Guadagnino e o roteiro de  James Ivory. A atmosfera criada é também capaz de nos sugerir a sensação de passado, como se já estivéssemos vivenciando uma história marcante e que ficou em nossa memória.

Por falar em memória, a música é uma atração a parte. Se temos as palavras não ditas pelos personagens, as canções “Mystery of Love” e “Visions of Gideon” compostas por Sufjan Stevens, já trazem nas letras tudo aquilo que é sentido e não é expressado. Música e imagens se complementam sem nunca caírem em um possível didatismo para o espectador.

Além do romance principal, é possível notarmos um clima acolhedor que envolve todo o lugar por conta de cenas em que refeições acorrem do lado de fora da casa, sempre com pessoas sentadas à mesa ou por perto. A mistura de idiomas também reforça essa ideia de tudo em família, como se o espectador também fizesse parte do lugar.

O filme consegue também de maneira única se expandir ao retratar um romance que vai além de qualquer ato político, feito esse, que BrokeBack Mountain de Ang Lee também conquistou em 2005. Me Chame Pelo Seu Nome celebra o amor de uma forma universal e capaz de conquistar uma empatia que transcende qualquer orientação sexual.

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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