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Crítica: A Vilã (2017)

Inovando e reverenciando

Hollywood conseguiu renovar um gênero que parecia ter explorado todos os recursos a disposição. Os filmes de ação que já repetiam suas fórmulas há alguns anos, variando muito pouco em seu conteúdo também, carecia de novas abordagens e boas histórias. John Wick (2014) e Mad Max: Estrada da Fúria (2015) foram os primeiros a surgirem numa nova era de filmes do gênero. O cinema sul-coreano, que tem tomado mais espaço a cada ano, trouxe um filme de ação que não fica devendo em nada se comparado com os blockbusters norte-americanos. Um longa-metragem que se posiciona junto desses grandes expoentes do gênero e faz referência ao clássico.

A história é sobre Sook-Hee (Ok-Bin Kim), treinada desde a infância para ser letal, é presa após homicídios em massa. Ela aceita um acordo com uma agência de assassinos que a deixará livre após 17 anos servindo. Presa dentro das imediações da agência, ela aperfeiçoa suas técnicas e tem de aprender, da pior maneira possível, que nem tudo ali é exatamente o que parece. Mesmo depois de cumprir com a sua parte no trato, as pontas soltas de seu passado voltam de alguma forma para acabar com a “normalidade” de sua nova vida. Em muitos momentos é fácil lembrar de Nikita(1980) de Luc Besson. Ainda que tome emprestado alguns conceitos, o trato com a agência talvez seja o mais evidente, é um filme que consegue trazer alguma originalidade.

E se a fórmula emula algo realizado no passado, o formato e a narrativa são novos. A primeira cena é repleta de ação desenfreada. É uma longa cena em primeira pessoa, feita para parecer que não há cortes. Como num vídeo-game, a protagonista vai atacando seus oponentes de forma impiedosa e agressiva, o que remete à cena do corredor de Oldboy, porém menos crua e mais elaborada. A câmera consegue acompanhar os movimentos e registrar ação sempre muito próxima, o suficiente para ganhar a atenção para história que pretende ser contada. São os minutos iniciais que agarram o público.

Sem uma narrativa linear, o arco dramático da personagem vai sendo revelado aos poucos e de maneira confusa. Entre idas e vindas de passado e presente, personagens novos são inseridos e a trama ganha contornos inéditos. Nunca sabemos de forma completa o que houve com Sook-Hee, são os lampejos de sua vivência que tornam o longa instigante.

O diretor Byung-Gil Jung, de apenas 37 anos, demonstra segurança com sua câmera. As cenas de ação são fluídas devido a sua opção por evitar muitos cortes. É fazendo uso de um jogo de câmeras inteligente, somado a edição e montagem ágeis que as lutas são sempre convincentes e inspiradas. Sem receios, os locais em que os confrontos acontecem são aleatórios, desde uma luta com katanas em cima de motos em movimento, até uma luta brutal dentro de um ônibus. Sua ousadia para filmar embates sangrentos também se converte em sensibilidade para os momentos mais tênues. O envolvimento de Sook-Hee com Hyun-Soo (Jun-Sung) é comovente o suficiente para fazer com que o público se envolva e torça pelos dois, ainda que a trama indique que não é certo. A relação de seu interesse amoroso com sua filha corrobora com

A trama ainda conta com muitos plot-twits, sempre surgindo da maneira mais inesperada, seja no presente ou no passado. A história regressa da protagonista justifica seu estilo de vida e, quando é obrigada a encará-la, humaniza toda a armadura que foi obrigada a criar para continuar viva.

No fim das contas, o título talvez seja o maior problema do filme. É reducionista e fatalista demais, a personagem não é necessariamente uma vilã. Se o é, isso só se concretiza com o último quadro do filme. A Vilã é, na verdade, a trajetória de uma vida castigada ao ponto de criar um monstro.

Written by João Neto

Estudante de jornalismo, jauense, apaixonado por cinema e estranho como um personagem de Wes Anderson. Produtor de conteúdo do site Universo DC 52, crítico do PisoVelho e do Cinetoscópio.