,

“Lady Bird” (2017) e o amadurecimento feminino

Lady Bird é um retrato sincero sobre tornar-se mulher

Lady Bird (2017) é o primeiro filme de longa metragem dirigido por Greta Gerwig. Greta é uma conhecida atriz, roteirista e diretora que já escreveu e atuou em filmes como Frances Ha (2012), Mistress America (2015) e Mulheres do Século XX (2016). O filme recentemente bateu o recorde do prestigiado portal de críticas Rotten Tomatoes como o filme mais bem avaliado da história do site.

Em Lady Bird, Greta nos introduz à personagem Christine (Saoirse Ronan), uma adolescente de 17 anos que mora em Sacramento, Califórnia e exige ser chamada de Lady Bird, nome que foi dado à ela por ela mesma. Christine está no último ano do ensino médio e sonha em fazer faculdade em alguma cidade grande, onde segunda ela “há cultura” – ideia essa que é rejeitada por sua mãe Marion (Laurie Metcalf), que passa por inúmeras dificuldades para criar a filha.

No meio dessa trama toda, os dilemas triviais da adolescência e sua passagem para a vida adulta estão todos ali: o primeiro amor, a mudança nas amizades, a primeira desilusão amorosa, a decisão de onde fazer faculdade.. Mas diferentemente da maioria dos filmes, onde o foco é sempre na adolescência e amadurecimento masculino, Lady Bird inova justamente por mostrar com sinceridade os desejos e transformações de uma mulher em fase de amadurecimento.

Acompanhamos de perto um período difícil na vida da personagem, um período cheio de anseios e mudanças. Isso tudo sob o espectro de uma mulher, e é aí que faz toda a diferença que Greta Gerwig esteja no comando de todos os detalhes do filme: ter na direção alguém que já passou por situações semelhantes, faz com que o filme adquira uma autenticidade pouco vista no cinema – sobretudo comercial – principalmente ao abordar com naturalidade questões como o amadurecimento sexual feminino, o aborto, o desejo de se encaixar e ser aceita por um determinado grupo e as intrínsecas relações femininas que fazem com que uma mulher seja quem ela é.

Pode-se dizer então que o filme se constrói principalmente diante das relações de Lady Bird com as mulheres da sua vida: sua mãe e sua melhor amiga Julie (Beanie Feldstein). A relação de Christine com sua mãe é uma das melhores coisas do filme, por ser um tanto complexa e difícil. Elas têm muito em comum (embora Christine não admita) e talvez por isso haja tanto desentendimento entre as duas. Como muitas adolescentes, Christine acha que sabe o que é melhor para si e por vezes passa por cima dos desejos de sua mãe, sendo egoísta e pensando apenas em si mesma. Sim, ela é humana e isso que a faz uma personagem tão rica. Greta constrói personagens que fogem do arco de mocinha ou vilã, boa ou má. Lady Bird é uma garota aprendendo a ser adulta, cometendo muitos erros e tentando se tornar adulta. E o processo de se tornar adulta, e consequentemente sair de casa para que isso aconteça, não é um processo que afeta apenas Christine. Marion sofre junto com ela, e sendo assim passa por seu próprio processo de amadurecimento também: o de ver a sua filha se tornar adulta.

A amizade entre Lady Bird e Julie é outra parte importantíssima para a trama: as duas têm a mesma idade e estão passando pela mesma fase, porém lidam com isso de formas diferentes. O filme traz a individualidade de cada uma, retratando como elas reagem à essas transformações, e como suas mudanças refletem no seu comportamento e nas suas relações com as pessoas ao redor. Sendo assim, ‘Lady Bird’ mostra como apesar de semelhantes, a experiência do amadurecimento é diferente para cada uma. Nos é exposto também o quanto uma amizade pode ser abalada pela turbulência dessa época da vida, acompanhado de um claro lembrete de que crescer não significa que se deve deixar pra trás as suas amizades e a sua família.

As personagens femininas são totalmente complexas e fora de arquétipos, além de serem autônomas e nenhuma estar baseada em um outro personagem masculino – como é muito comum nos filmes de modo geral. Até mesmo uma personagem secundária como Shelly (Marielle Scott), a namorada do irmão de Christine, não é nenhum pouco rasa: ela adquire mais profundidade e importância ao longo da história, principalmente ao contar como Marion a ajudou e acolheu. E toda essa rede de mulheres, cada qual passando por seu processo individual de crescimento e aprendizado acaba apoiando umas às outras e de alguma forma, mesmo que indireta, se fortalecendo.

Me ver representada nas telas por uma roteirista e diretora que constrói personagens femininas complexas e humanas é de extrema importância, e também me consolida como mulher, pois sendo assim vejo que não estou sozinha e – como cineasta – vejo que eu também tenho capacidade e força para fazer o mesmo. E assim como dentro do enredo do filme, onde as mulheres dão suporte umas às outras, Greta Gerwig também acaba por fortalecer os espectadores ao mostrar uma alternativa de representação sincera e não objetificada da mulher, e também por ser um retrato verdadeiro do que muitas e muitos jovens, assim como eu, passam.

Para mim Lady Bird é uma ode aos relacionamentos femininos que dão suporte para que uma mulher cresça e possa então alçar voo sozinha. Digo isso afirmando que sem minha mãe, minhas avós, minhas tias, minhas amigas e as mulheres que eu não conheço mas que suas histórias me servem de inspiração, enfim: sem essas mulheres eu não teria me tornado a mulher que sou. E ainda mais importante que isso, a mulher que – assim como Lady Bird – eu estou aprendendo a ser.

Written by Rafaela Germano

Feminista e apaixonada por Cinema de Horror. Graduanda em Cinema e Audiovisual, atualmente realizando uma pesquisa sobre a Representação feminina e atribuições de gênero em filmes de vampiro.

Deixe um Comentário