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Nosferatu: Original X Remake

Observações sobre os filmes Nosferatu (1922) e Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979)

Muito já se falou do filme Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens,1922), dirigido por F. W. Murnau, assim como da importância do Expressionismo Alemão dentro do cinema de horror. No entanto, pouca gente parece ter ouvido falar sobre Nosferatu – O Vampiro da Noite (Nosferatu: Phantom der Nacht, 1979), remake dirigido por Werner Herzog.

Lembrando que a versão de 1922, já um clássico do cinema, foi baseado no livro Drácula, de Bram Stoker (1897). Murnau na época  não havia conseguido os direitos autorais com a esposa do autor da obra, já que o mesmo havia falecido, e acabou produzindo sua própria versão que inevitavelmente apresenta na narrativa o enredo original, porém com os nomes dos personagens modificados. Claro que não adiantou nada e a viúva de Stoker na época, abriu um processo e conseguiu com que as cópias dos filmes fossem confiscadas. Felizmente não todas, o que nos possibilita de assistir ao filme facilmente, tanto em mídia física quanto digital.

O remake de 1979 é conhecido por sua estética mais estilística e uma grande homenagem ao filme original. Até mesmo alguns enquadramentos acabam que se repetindo ao mesmo tempo em que Herzog consegue imprimir um estilo só seu, acrescentando também alguns elementos que acabaram enriquecendo a história. De forma alguma esse texto pretende dizer qual versão é a melhor, até porque isso seria bem injusto, já que se tratam de dois filmes muito bem realizados em épocas completamente diferentes. No fundo, um bom cinéfilo e fã de filmes de vampiro, deve correr para ver as duas versões.

 Contexto da época em que foi produzido

A arte expressionista já existia na pintura (tomando conta rapidamente do teatro e da literatura) e se desenvolveu principalmente na Alemanha, fazendo com que surgissem importantes artistas como Vincent Van Gogh e Edward Munch. O movimento artístico na pintura procurava a expressão dos sentimentos e das emoções do artista, sem representar uma realidade objetiva. O lado pessimista da vida também pode ser verificado, dadas as circunstâncias históricas da época, como o isolamento e a alienação.

A Primeira Guerra Mundial destrói o movimento, mas ele renasce e encontra outra forma de se expressar: o cinema. O contexto histórico do Expressionismo Alemão na sétima arte se encontra na participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. O país saiu derrotado da guerra e um sentimento de incerteza em um mundo sem clareza, com perda das referências, além de uma constante preocupação com o amanhã, tomou conta do país naquela época. Essa situação também trouxe para a Alemanha um questionamento da sua realidade social, o que foi suficiente para que os cineastas da época investissem nesse contexto histórico para expressar toda essa obscuridade em seus filmes.

A versão de 1922 de Nosferatu, evoca justamente a morbidez, os horrores e os elementos fúnebres que criam uma atmosfera de pesadelo em que se via refletida a alma sofrida da Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial. O movimento é considerado o berço dos filmes de terror que surgiriam em breve e seu forte estilo visual ainda serve de inspiração para diversos filmes do mundo todo.

Já a versão de 1979, por ser uma grande homenagem ao primeiro, mantem muito desses elementos, enquanto inevitavelmente ocorrem algumas mudanças. A primeira é obviamente o som e as expressões mais naturais dos personagens, o que é oposta à versão de Murnau, já que o cinema ainda era mudo. Sendo assim, percebemos como esse “exagero” dos atores na versão original, nada mais é que a forma dos mesmos passarem suas emoções que precisavam ser exteriorizadas através das expressões faciais e gestos.

Criando uma atmosfera

Werner Herzog criou em 1979 uma atmosfera predominantemente onírica e utópica para sua versão de Nosferatu. Já com a possibilidade de um cinema colorido, a fotografia é marcada por tons azulados, acinzentados e brancos. As sombras permanecem em alguma cenas, principalmente com a presença do vampiro.

Já o filme original, é possível vê-lo em versões preto e branco ou com a película tingida de âmbar para caracterizar o dia (ou luz acesa) e azul para a noite. Mesmo assim é inevitável perceber como a marcação das sombras é mais acentuada. Alguns efeitos simples como a aceleração do filme, pontuam cenas que frisam o sobrenatural nas ações de Nosferatu. Isso ocorre quando o vampiro se aproxima com sua carruagem para buscar Hutter e quando o deixa perto do castelo. A mesma aceleração acontece quando o vampiro se prepara para se mudar para outra cidade enquanto leva consigo os caixões contendo terra amaldiçoada. O stop motion também é usado por Murnau como forma de criar a movimentação de porta e dos caixões que se abrem e fecham através do poder sobrenatural do vampiro.

A natureza por outro lado,  incorpora a presença do mal em ambos os filmes. Enquanto na versão de 1922, uma hiena se aproxima de dois cavalos que se assustam enquanto Hutter está dormindo na pensão, no remake, Hutter (nessa versão conhecido como Jonathan Harker) observa a força do rio enquanto vai se aproximando da casa de Nosferatu. A música no longa de Herzog pontua também essa atmosfera cheia de perigos enquanto a neblina surge em ambos os filmes. Um ar mais contemplativo por parte de Jonathan também é mais óbvio no remake, como se nós também fossemos convidados a entrar nessa atmosfera onírica e sutilmente hipnotizante.

Outro ponto que vale destacar é a movimentação de câmera, algo que seria complicado de se fazer em 1922. Sendo assim, a câmera estática é a que o espectador confere nessa versão. Isso no entanto não impede que Murnau faça enquadramentos precisos e muito bem realizados.

Herzog no entanto, faz também o uso da câmera na mão, permitindo explorarmos o castelo junto com o protagonista. O mesmo ocorre em alguns lugares durante a viagem do personagem até o castelo. Essa ideia por outro lado, é capaz de criar uma imersão melhor no espectador que passa a explorar os lugares junto com o personagem, ganhando até um momento mais contemplativo dos lugares e do mórbido como um todo, do que uma tentativa de criar tensão.

Personagens

Há também uma diferença bastante notória nos personagens das duas versões do filme. Enquanto Hutter ganha um tom mais despreocupado e até zombador da ideia de um ser maléfico que se alimenta de sangue, todos os personagens no remake de Nosferatu, adotam um semblante melancólico. Jonathan é mais natural e também menos entusiasmado que Hutter. Durante a viagem, seu rosto quase inexpressivo, parece esboçar uma mistura de desconfiança e atenção à medida em que vai se aproximando do castelo do vampiro. Diante da real ameaça da presença maléfica de Nosferatu, seu medo e preocupação se confirmam de uma forma menos excessiva do que se poderia esperar da versão muda.

Lucy Harker (Ellen na versão de 1922), na versão de 79, parece trazer nas costas a desgraça que ainda se anunciará com a chegada do vampiro a sua cidade. Extremamente pálida e vestindo constantemente roupas em tons brancos e escuros, frisam a ideia da morte e do trágico que toma conta da personagem. Uma das cenas mais interessantes, não deixaram de acontecer em ambas as versões. Lucy já tomada por seus pressentimentos e preocupações, está sentada em um cemitério que marca de vez o clima funesto e melancólico do filme. Ainda  na versão de Herzog, a personagem  Lucy tem uma mudança bem significativa comparada a Ellen. A personagem aparece mais evoluída e enfrenta Nosferatu no primeiro encontro dos personagens. O interessante diálogo sobre a morte e principalmente o desabafo do vampiro sobre seu sofrimento em ser imortal, juntamente com a falta de amor, são um dos pontos altos do filme. Lucy se nega a dar seu amor a Nosferatu, ressaltando que o mesmo só poderá ser de Jonathan. A personagem se impõe diante desse encontro apesar do medo expressado pela personagem de uma forma que claramente homenageia o filme de 1922. Nesse momento específico, seu medo é exteriorizado para as expressões faciais no melhor estilo expressionista.

A personagem ainda tem outros momentos também significativos. Lucy também questiona sua própria fé, sendo mais racional diante de toda a situação e tendo consciência de que precisa tomar a iniciativa e tentar fazer algo para salvar Jonathan. Herzog é eficaz no remake ao dar mais conteúdo para a personagem, não limitando-a apenas ao seu sacrifício para se livrar do vampiro, como é mais notório na versão de Murnau.

Uma cidade condenada

A cidade assolada pela peste trazida junto com Nosferatu, merece uma menção especial. Na versão de 1979, ela ganha uma leitura mais poética com direito a celebração das vidas que já estão se esvanecendo. Lucy caminha pelos habitantes da cidade que colocam mesas ao ar livre e nelas fazem um banquete. Talvez o último de suas vidas, já que a peste está matando cada vez mais pessoas. A dança da população parece expurgar a opção de viver os últimos momentos de forma melancólica e depressiva. Curiosamente essa cena é a única em que vemos as pessoas realmente felizes (já que o tom utópico predomina no filme) e mesmo assim, o caráter funesto está no contexto dessa cena.

Nosferatu

E chegamos ao principal personagem do filme. A figura excêntrica e até enigmática que surge no filme de Murnau, marcou e ainda marca o cinema expressionista em três momentos bem significativos. O primeiro é a famosa sombra do vampiro que surge subindo as escadas da casa de Ellen e em seguida a sombra cuja mão se alonga ainda através da sombra, enquanto se aproxima da porta do quarto da personagem. Tudo é feito através da sombra de Nosferatu, inclusive o momento em que o vampiro parece “pegar” o coração da mulher, antes de mordê-la. Somente no momento em que Nosferatu está sugando o sangue de Ellen, é que o vampiro deixa de ser apenas uma sombra maléfica. Vítima e criatura surgem no mesmo plano, em um contato fatal e icônico na narrativa. O personagem vivido por Max Schreck, tem um misto de espanto e até de acanhamento, que acompanham sua característica de outsider.

Quando tenta atacar Hutter à noite, o Nosferatu não surge no mesmo enquadramento que o personagem, como se a presença imunda da criatura não pudesse nem mesmo dividir a tela com sua vítima. Assim como numa cena com Ellen, a sombra é também usada para simbolizar um desses ataques a Hutter.

Estar condenado a viver para sempre e estar no mundo por séculos parece ser algo realmente penoso. E é justamente esse peso da condenação que Herzog exprime na sua versão de 1979. Nosferatu aqui, interpretado por  Klaus Kinski, é um vampiro completamente melancólico. Agora podendo finalmente ser ouvido, a possibilidade de um cinema sonoro nos permite ouvir a própria voz cansada de um vampiro que sofre e que precisa de amor. Sua humanização é mais clara no remake e as sombras são mais reforçadas no personagem, que às vezes tem seu rosto (em close up) totalmente emoldurado por elas. A melancolia também é reforçada por uma luz meio azulada que “banha” por vezes  personagem.

Quando já está na cidade, ele parece contemplá-la e a câmera lenta parece querer reforçar seus momentos no lugar, respeitando talvez seu momento na cidade. O momento do ataque a Lucy, é marcada por um leve erotismo que permite que Nosferatu toque na perna da personagem enquanto levanta sua saia. Algo bem difícil de ser visto em 1922. Talvez menos tímido que sua versão original, o vampiro de Herzog é um pouco mais ousado.

Como já citado, a ideia aqui não é dizer qual filme é melhor. Ambos são excelentes e parecem até se complementarem com cenas e elementos que se faltaram em um, pode ser encontrado no outro e vice-versa. Quem ganha são os fãs e o próprio cinema, claro. Se ainda não viu Nosferatu e/ou Nosferatu – O Vampiro da Noite, vá correndo ver porque vale muito a pena.

 

 

 

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.

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