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Corpo Elétrico

Diversidade além da sexualidade

Marcelo Caetano já tinha (e tem) uma carreira bem consolidada antes mesmo de dirigir e roteirizar esse, que é seu primeiro longa-metragem. Dirigiu os curtas Bailão (2009), Na Sua Companhia (2011), Verona (2013) e Blasfêmea (2017), codirigindo o último com Linn da Quebrada. Seus curtas foram exibidos em festivais como Roterdã, Clermont-Ferrand, Indie Lisboa, Huesca e Montreal. O cineasta também foi co-roteirista e assistente de direção de Mãe só há uma (2016) de Anna Muylaert, assistente de direção e ator em Boi Neon (2015) de Gabriel Mascaro, produtor de elenco em Aquarius (2016) de Kleber Mendonça Filho e diretor assistente de Tatuagem (2013) de Hilton Lacerda.

Corpo Elétrico (2017) gira em torno de Elias, um rapaz vindo da Paraíba para trabalhar em uma confecção na cidade de São Paulo. Observamos o personagem na sua rotina, saindo com seus amigos e conversando com outros caras sobre seus sonhos e sua vida depois de uma transa sem qualquer compromisso.

Com vários temas abordados, Elias foge no clichê do personagem clássico que vem do sertão e vem trabalhar em São Paulo. Aqui o clássico “cabra macho” num sentido machista, dá espaço para um jovem de 23 anos de idade, homossexual e que ainda não sabe bem que rumo tomar na vida. Elias apenas vive, e a narrativa também não se preocupa com um formato clássico, trazendo mais o que se pode chamar de “uma fatia da vida de seus personagens”, do que uma história transformadora.

1 . A dualidade das relações entre os personagens no ambiente de trabalho e fora dele

O longa demarca muito bem dois mundos: o dia a dia de Elias na confecção e quando sai com os colegas de trabalho. Na fábrica a paleta de cores apresenta tons brancos e acinzentados que estão presentes nas paredes e nos uniformes dos funcionários. A câmera mais estática e com pouca movimentação, também parece representar a monotonia de Elias, assim como os planos mais demorados que enfatizam mais o tempo do protagonista na tela enquanto ditam um ritmo mais parado no ambiente de trabalho. Os funcionários, tanto figurantes quantos personagens, aparecem em suas mesas de trabalho organizados e alinhados, exatamente como uma linha de produção, que reforça bem os sons das máquinas de costura trabalhando.

Tudo muda em um plano sequência muito interessante em que os personagens estão saindo da confecção e andando por uma rua em direção ao bar. Sem seus uniformes, a câmera passeia por esses pequenos grupos enquanto ouvimos pedaços de conversas sobre as vidas, sonhos e batalhas de cada um. Nesse momento surge um calor mais humano no lugar do som das máquinas, que dão espaço para conversas mundanas, mas capazes de nos apresentar a esses personagens de forma orgânica e fluída.

  1. Relações de amizade e de sexo fluídas. O corpo importa.

Corpo Elétrico apresenta um diferencial na forma de retratar a vida sexual de seu protagonista, Elias. Com uma vida sexual ativa, o personagem é visto tendo relações sexuais, desde com amigos até ex-namorados. Essas relações sexuais são mais sugestivas do que concretas e explícitas, uma vez que o roteiro parece buscar aqui um outro sentido na forma em que exibe essas cenas.

O corpo aqui está em primeiro lugar e juntamente com o encontro de outros corpos é que também emana essa eletricidade vinda do título. Os sons de beijos, lábios sobre a pele, são realçados no longa como forma de ampliar ainda mais essa noção do contato com o outro, algo bem diferente das relações na confecção.

Essas relações também não ganham etiquetas de definição. Não há um compromisso sério entre os parceiros sexuais de Elias, apenas um momento de troca de energia e prazer. O carinho com essas pessoas está bem mais além de um compromisso e até do próprio sexo, que acaba sendo mais uma consequência de tudo.

  1. Naturalidade nas atuações

Os diálogos por vezes se sobrepõem, enriquecendo o contato e a harmonia entre eles. Há cenas de festa, ou até de uma simples conversa no bar em que esses personagens conversam e nós nos sentimos como se estivéssemos lá com eles. Isso deve-se muito a escolha do elenco, que por não ter atores conhecidos do grande público, principalmente o televisivo, ajuda a criar essa naturalidade essencial no filme.

  1. Pluralidade nos núcleos e interação entre os mesmos

Drags, gays afeminados, trans, mulheres e homens cis heterossexuais, sendo um deles vindo de Guiné Bissau. Tudo junto e misturado. Esses núcleos não só representam uma pluralidade interessante, como também se juntam durante o filme. Elias por vezes se perde por todos esses núcleos ao ponto de se despir de seu papel de protagonista. Isso não é algo negativo, pelo contrário, traz mais naturalidade ao personagem que transita por esses núcleos, reforçando uma união.

Drags fazem um casamento simbólico de um casal heterossexual, mulher trans faz sexo com um homem cis homossexual, gays em uma festa que acontece em um jogo de futebol e até um samba no ônibus onde gays e heterossexuais cantam juntos. Utopia no país onde se mais mata LGBTs no mundo? Não, pois Corpo Elétrico está mais preocupado em celebrar as diferenças e o respeito entre elas. Pode ser difícil de achar, mas tem.

  1. Curtir o momento às vezes é tudo o que precisamos no momento

Elias é cobrado por um funcionário da confecção sobre seu futuro e o que fazer da vida. Quem nunca teve uma fase assim? Somos constantemente cobrados pela sociedade um rápido amadurecimento que nem sempre estamos prontos para atender. Às vezes um dia na praia e não aparecer no trabalho, é algo que precisamos fazer, podendo ser metaforicamente ou literalmente, como ocorre no filme. E é nessa fatia de vida de Elias que percebemos que algumas fases da vida não precisam de um entendimento ou que faça um grande sentido no momento, e é isso o que o roteiro de Corpo Elétrico também busca.

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.