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Barberian Sound Studio

Sons como forma de perturbação e narrativa

Barberian Sound Studio (2012) é um filme excêntrico. Dirigido pelo cineasta britânico Peter Strickland, o longa se passa na década de 1970 e conta a história de Gilderoy (Toby Jones), um engenheiro de som recém-chegado da Inglaterra para trabalhar em um estúdio de um filme de horror italiano. Enquanto realiza seu trabalho, Gilderoy precisa lidar com alguns atritos com Francesmo (Cosimo Fusco) e com o diretor do longa Giancarlo Santini (Antonio Mancino).

Acreditando que trabalharia em um filme sobre cavalos, Gilderoy se vê no processo criativo de foley de um filme giallo, gênero literário e cinematográfico italiano de suspense, terror e romance policial que teve seu auge entre as décadas de 1960 e 1980. O nome é uma referência às capas amarelas das revistas pulp italianas, publicadas a partir de 1929.

Há ainda a questão mais importante no longa: a jornada de Gilderoy em meio a uma atmosfera cheia de hostilidade e desconforto. Os símbolos não poderiam ser mais claros. O personagem trabalha no som de um filme de terror chamado The Equestrian Vortexque, e mesmo que nenhuma cena do longa fictício seja exibida para o espectador, conseguimos imaginar como ele seja. Além de Barberian Sound Studio brincar com a nossa imaginação fazendo com que nós mesmos criemos as imagens vistas por Gilderoy, o próprio ambiente do trabalho do personagem e claro, os sons, são responsáveis por simbolizarem a jornada desse homem em um período de total deslocamento e estranhamento.

Fora isso, ainda temos cenas muito interessantes que mostram o processo de foley do filme. Para quem não conhece, foley é o nome dado aos efeitos sonoros de uma obra audiovisual, produzidos e gravados dentro de um estúdio e em sincronia com a imagem. Não faltam legumes e frutas sendo jogados no chão e esfaqueados para criarem o efeito dos personagens caindo de prédios ou morrendo a golpes de faca. Como já dito, só observamos Gilderoy e seus ajudantes criando os efeitos diante da tela em que é exibido o filme. As frutas e legumes usados, ficam em um canto enquanto gradativamente vão apodrecendo, caracterizando a própria situação do protagonista (talvez sua sanidade) que vai aos poucos ficando insuportável.

O trabalho que se une ao cotidiano do personagem, vai aos poucos se tornando uma coisa só. Gilderoy também faz gravações de foley em sua própria casa e somos surpreendidos com gritos provenientes das gravações dos sons do filme, assim como expressões das atrizes que estão fazendo vozes de bruxas, dando risadas sinistras e gritos estridentes. Gritos esses, que muitas vezes servem como forma de expurgar as frustrações dessas próprias mulheres que são maltratadas pelo produtor e pelo próprio diretor do filme que estão trabalhando. Tudo isso reforça a hostilidade vivida pelo engenheiro de som, que se encontra ainda mais deslocado, quando seus companheiros de trabalho falam em italiano entre eles, deixando-o de fora da conversa.

Com apenas duas locações, o estúdio e a casa de Gilderoy, as alternâncias entre esses dois lugares, por vezes nos confunde propositalmente. Às vezes a câmera focaliza um objeto que parece fazer parte do estúdio, para só depois percebemos que já estamos na casa do protagonista. Isso transparece como o personagem tem seu trabalho afetando sua vida até quando não está no estúdio. Essa parece ser justamente a ideia da narrativa, nos colocar ao máximo no lugar de seu personagem principal, nos fazendo sentir através dos sons e até mesmo das imagens, o desconforto de Gilderoy.

Assim como é possível notar em outro trabalho de Peter Strickland (O Duque de Burgundy, 2014), Barberian Sound Studio se permite tomar um rumo que alcança o surreal e o onírico. Gilderoy parece aceitar a forma arrogante com que Francesmo e Giancarlo tratam suas atrizes a partir do momento em que ele já se sente parte do lugar onde trabalha. Cenas que parecem terem sido criadas por David Lynch, simbolizam através de sonhos, situações que às vezes parecem se misturar com a realidade. O protagonista que de repente se vê na tela do estúdio em que trabalha, se depara com sua imagem em um negativo que está pegando fogo. Com sua voz dublada em italiano, o filme representa com essa ruptura da realidade, uma entrega do protagonista ao ambiente hostil e desgastante, se tornando até tão sádico quanto seus patrões.

Com um final aberto a interpretações, Barberian Sound Studio é uma homenagem clara ao giallo dos anos 70, mas que está mais preocupado com um cinema que nos convida  a ter uma experiência do que contar uma simples história. Todos esses elementos, especialmente os sonoros, visam uma imersão na vida de um homem (e porque não também na sua loucura) cujo trabalho dominou seu psicológico.

 

 

 

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.