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Crítica | Eu, Tonya

Um frescor para os filmes biográficos

Cinebiografias costumam atrair bem o público. Se o cinema já é uma arte em contar histórias, quando elas são baseadas em acontecimentos verídicos e seus personagens de fato existem, tudo fica ainda mais interessate. Melhor ainda quando a forma de se contar é cheia de estilo próprio e até ousada, saindo de alguns clichês. Assim é Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), dirigido por Craig Gillespie, responsável por filmes como A Garota Ideal (2007) e o remake de A Hora do Espanto (2011).

Para quem não se lembra, ou era muito criança, ou nem mesmo era nascido na época, o longa é sobre a americana Tonya Maxene Harding (no filme, interpretada por Margot Robbie), uma ex-patinadora artística que por duas vezes disputou os Jogos Olímpicos na década de 1990. Tonya ainda  foi a segunda mulher e a primeira mulher americana, a conseguir dar o salto Axel triplo, um tipo de salto dado de frente, extremamente difícil e que tem muito valor nas competições. Depois de se envolver em uma polêmica conspiração contra sua adversária, a também patinadora  Nancy Kerrigan, Tonya viu sua carreira ser extremamente prejudicada.

Eu, Tonya é um filme biográfico baseado apenas nas entrevistas e depoimentos pelos personagens na época em que tudo aconteceu. O longa entra numa seleção que não se vê sempre quando falamos em cinebiografias. Seu tom politicamente incorreto, por assim dizer, foge logo de cara de filmes que poderiam buscar facilmente um tom mais emotivo. Esse tom, no entanto, jamais poderia imprimir a personalidade de Tonya e muito menos de sua mãe, LaVona Golden (interpretada pela ótima Allison Janney), que se assistisse a um filme mais dramático, com certeza diria: “Mas que mer** é essa?”. Quem assistiu ou ainda irá assistir ao filme, entenderá.

Aliás, Janney tem sido muito premiada como melhor atriz coadjuvante em diversas premiações, já faturando o Globo de Ouro e concorrendo ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante. Margot Robbie (que também concorre a um Oscar, no caso, de melhor atriz) também está muito bem no papel e sabe dosar bem entre a menina que sonha se destacar naquilo que sabe e ama fazer e entre a mulher competitiva e explosiva.

Nossa protagonista sempre conviveu em um meio violento e sem afeto, onde a mãe que sempre a maltratou desde a infância, fazia isso para que (segundo ela) sua filha fosse uma pessoa mais forte e disciplinada na patinaçã. Mesmo a frieza e a forma violenta com que LaVona trata Tonya, não se pode negar que ela sempre se esforçou para pagar as aulas de patinação para a personagem desde a infância, e que mesmo com seu jeito torto, sempre acreditou nela. A violência aqui se estende também para o relacionamento de Tonya com Jeff Gillooly (Sebastian Stan), que em diversas cenas aparece batendo na personagem, que também revida.

Toda essa vida complicada e violenta é amenizada no roteiro, que como já dito, não busca ser tocante. Pelo contrário, ela busca até ser “leve” nas próprias cenas de violência, mas sem jamais ridicularizar a situação ou desrespeitar as mulheres que são agredidas. Talvez (por mais estranho que possa parecer) um dos trunfos do filme seja justamente manter o espectador indignado com essas situações ao mesmo tempo em que sente essa leveza no roteiro, que não transforma tudo em um grande choque ou algo extremamente dramático. O espectador também deve estar preparado para uma narrativa franca e bem direta, em que os personagens são o que são e não há espaço para ninguém se redimir, talvez mais um trunfo do politicamente incorreto do filme.

Outro ponto interessante é a forma como essa história é contada. O filme cria um falso documentário com os próprios atores interpretando seus respectivos personagens e falando para a câmera as suas versões do que aconteceu. Essas cenas são intercaladas com as cenas dramatizadas em que, às vezes, vemos Tonya quebrar a quarta parede e nos confessar alguma impressão pessoal do que está sendo vivido naquele momento.

A montagem também é algo importante aqui. Seja em um corte brusco para apresentar uma cena que contradiz algo que foi dito por algum personagem, ou em um corte que pontua apenas cenas em que houveram uma passagem de tempo, percebemos um dinamismo no filme. Planos-sequência também são usados em algumas cenas para darem mais fluidez aos acontecimentos e também para caracterizar uma passagem de tempo em uma determinada sequência do filme. Mesmo nesse caso havendo obviamente cortes não visíveis pelo espectador, esse falso plano-sequência é muito bem realizado e em total contexto com a motivação dos personagens. A câmera também é algo a ser notado, principalmente nos momentos em que Tonya está patinando. Ela se move junto com os movimentos da personagem, vai para cima, para baixo, se aproxima, se afasta, tudo para trazer leveza nos movimentos e destacar as performances de Robbie, que mesmo com muito treino antes das filmagens começarem, precisou do auxílio da computação gráfica para dar alguns saltos que seriam impossíveis para a atriz.

Eu, Tonya é capaz de emocionar nos momentos certos quando vemos a dedicação da personagem e principalmente como suas escolhas erradas influenciaram negativamente sua carreira que tinha tudo para dar certo. O espectador irá rir, se emocionar e torcer para Tonya como se estivesse na plateia de uma de suas apresentações. É um filme cheio de energia, inquieto, além de não se encaixar em uma cinebiografia mais usual, e tudo isso refletindo a própria protagonista e a forma como a própria levou a vida nesse período de sua vida.

Written by Tarcísio Araújo

Formado em Cinema pelo CEUNSP - Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Escreve para o blog Canal Simulacro e site Cinetoscópio.