Primetime é um thriller satírico que aborda os dias de auge do programa To Catch a Predator, visando provocar risos desconfortáveis e tensão. O filme se destaca pelo estilo visual marcante e pela atuação intensa de Robert Pattinson, que mantém o espectador atento durante toda a história. Apesar de sua abordagem por vezes confusa, a produção combina humor negro com uma atmosfera de desconforto.
Contexto do reality show e o impacto de To Catch a Predator
Nos anos 2000, a televisão passou por uma transformação com o crescimento dos reality shows, que, por serem mais baratos e não dependerem de atores e roteiristas sindicalizados, dominaram as grades de programação. Muitos programas ultrapassaram os limites do bom senso, mas o público continuava atraído pelo que era chamado de “entretenimento de desastre”. Foi nesse cenário que surgiu To Catch a Predator, programa do Dateline NBC que expunha supostos pedófilos atraídos para armadilhas com menores de idade, para depois serem confrontados pelo apresentador Chris Hansen.
O formato, marcado por seu teor sombrio e controverso, virou fenômeno cultural e até alvo de humor em programas de comédia noturnos. Porém, o programa acabou entrando em crise, ainda que seu impacto tenha persistido.
Primetime e o documentário Predators exploram terreno semelhante
Embora To Catch a Predator tenha sido cancelado, Chris Hansen segue atuando em outras frentes, e youtubers imitadores têm produzido versões amadoras do programa online. Essas situações foram aprofundadas no documentário Predators (2025), dirigido por David Osit, que questiona se o programa realmente foi positivo. O documentário aponta que, apesar dos suspeitos serem repulsivos, o programa apresentava problemas éticos e legais, já que muitos dos acusados capturados não foram formalmente processados.
Enquanto Predators tem tom introspectivo, Primetime, dirigido por Lance Oppenheim, é uma abordagem mais frenética e exagerada, quase excessiva em sua falta de sutileza. O longa mistura sátira com thriller e foca no personagem Chris Hansen, interpretado por Robert Pattinson, que apresenta um retrato vazio e obsessivo por audiência, distanciado de qualquer convicção real.
Performance de Robert Pattinson destaca filme
Robert Pattinson, em um ano cheio de bons trabalhos, traz um desempenho marcante em Primetime, com uma presença inquietante e estranha que combina com o personagem. Ele é o principal motivo para assistir ao filme, que, embora perturbador e envolvente, não alcança toda profundidade que poderia. O roteiro de Ajon Singh parece apenas arranhar a superfície desse universo complexo. Ainda assim, o filme consegue mesclar humor negro com uma sensação desagradável que permanece após os créditos.
Oppenheim, junto com o diretor de fotografia David Bolen, aposta em uma estética carregada de tons azuis e closes extremos, remanescentes da iluminação de televisores em quartos escuros, ampliando a sensação de desconforto. Esse recurso visual é eficaz principalmente pela atuação de Pattinson.
Elenco de apoio também entrega boas atuações
O elenco de Primetime é formado por atores que se destacam, entre eles Merritt Wever, que interpreta Andie, a produtora do programa. Sua personagem, que frequentemente mastiga chicletes, demonstra ser possivelmente ainda mais fria que Hansen, embora menos desequilibrada emocionalmente. Uma trama paralela pouco desenvolvida sugere que Andie poderia sair do programa para algo menos sombrio, mas ela rejeita essa possibilidade.
Outra personagem importante é Dan Plumb, vivido por Skyler Gisondo, um ator que atua como isca no programa, fingindo ser um garoto para atrair abusadores. Ele apresenta conflito moral evidente, e Gisondo lhe confere humanidade, mostrando as dificuldades do personagem em lidar com o trabalho.
Imagem: Divulgação
Quem é o Chris Hansen de Primetime?
Enquanto Dan é o único personagem com arco emocional mais evidente, é a figura de Hansen quem monopoliza a atenção, ficando cada vez mais instável e obcecado em vencer a competição de audiência contra Lost, programa exibido em outra emissora no mesmo horário. Ainda assim, o verdadeiro entendimento de quem é o personagem fictício de Hansen permanece nebuloso, talvez até para ele mesmo.
Hansen aparenta um funcionamento mecânico sem emoções reais, movido por insegurança e sede de sucesso. Embora tenha esposa e filhos, seus sentimentos parecem apagados. Uma cena revela Hansen acordando os filhos para assistirem seu programa, numa tentativa estranha de impressioná-los. Sua esposa, interpretada por Anna Faris, aparece como uma figura distante, e sabe-se que Hansen mantém casos extraconjugais, que soam como gestos automáticos, sem significado profundo.
Primetime provoca desconforto intencionalmente
O filme prende o público enquanto avança para um desfecho esperado. Apesar de outros títulos já terem abordado temas similares com mais sucesso, como Network e Nightcrawler, a combinação do estilo impactante de Primetime com a atuação intensa de Pattinson cumpre sua proposta. O diretor também mistura realidade e ficção, escalando o ex-executivo da NBC Jeff Zucker para interpretar a si mesmo.
Quem tem receio de que o filme suavize as questões envolvendo To Catch a Predator pode ficar tranquilo: Primetime não demonstra empatia pelos supostos predadores e pouco simpatiza com qualquer personagem. Em um momento, Hansen comenta sobre uma antiga escuridão maligna espalhada pelo mundo, que ao final parece ter consumido tudo, mesmo sob o brilho dos holofotes da TV.
Classificação do filme: 7,5 de 10
Primetime estreia nos cinemas em 25 de setembro de 2026.
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Com informações do SlashFilm
