As cenas iniciais do cinema de terror têm a missão de envolver o público rapidamente, mesmo antes que os personagens sejam apresentados ou que as regras do universo do filme sejam estabelecidas. Em poucos segundos, uma frase pode transmitir ameaça, criar uma mitologia, enganar a audiência ou transformar uma situação comum em algo perturbador.
Algumas dessas falas são assustadoras por revelarem diretamente algo horrível. Outras impressionam por parecerem inocentes, estranhas ou até acolhedoras. Há ainda aquelas que ganham um significado maior conforme a trama avança, tornando-se avisos temáticos dentro do filme.
The Texas Chain Saw Massacre (1974) – “O filme que você está prestes a ver é o relato da tragédia que atingiu um grupo de cinco jovens…”

Antes da jornada fatídica de Sally Hardesty e seus amigos pelo interior do Texas, The Texas Chain Saw Massacre mostra uma narração grave, interpretada por John Larroquette. Ele afirma que o filme é um relato da tragédia ocorrida com cinco jovens, preparando o público para um verão de pesadelo.
A narração simula com perfeição um estilo documental, com um texto na tela que afirma que os eventos são baseados em fatos reais. Essa falsa apresentação documental aumenta o impacto da violência ao conferir um ar de veracidade perturbador.
Embora o assassino real Ed Gein tenha inspirado o personagem Leatherface, o filme não é uma reconstituição da sua história. Mesmo assim, a voz autoritária da abertura estabelece um tom que torna The Texas Chainsaw Massacre ainda mais assustador antes da história começar.
Candyman (1992) – “Dirão que eu derramei sangue inocente. Para que serve o sangue, se não para ser derramado?”

Candyman inicia com o personagem título, interpretado por Tony Todd, falando sedutoramente enquanto abelhas o cercam. Sua fala filosófica distingue o assassino, que não verbaliza suas intenções como um criminoso comum.
Ao dizer “Para que serve o sangue, se não para ser derramado?”, ele transforma os assassinatos em algo inevitável e quase poético, reforçando o mito sobrenatural que envolve o personagem.
Esse tom é fundamental para o filme, pois o terror não está apenas na violência, mas na existência do monstro como lenda urbana. A fala estabelece a fusão de mito, violência, folclore e crença presentes na obra.
Scream (1996) – “Alô?”

A abertura de Scream apresenta Casey Becker (Drew Barrymore) respondendo o telefone com um simples e cotidiano “Alô?”. A conversa começa como um engano comum, mas rapidamente se transforma em um jogo mortal com um interlocutor desconhecido, dando início à famosa sequência de Wes Craven.
A escolha desta palavra tão corriqueira é o que a torna tão impactante. Não há advérbios assustadores ou avisos sobrenaturais, apenas a ação comum de atender uma ligação. O medo cresce conforme a voz de Casey muda, elevando a tensão a cada “Alô?” pronunciado de forma cada vez mais desesperada.
A fala também reforça o interesse do filme na relação entre o terror e os clichês do gênero, utilizando o telefone — objeto comum em thrillers — como elemento ameaçador. A cena é uma homenagem ao filme When A Stranger Calls, que começa de forma muito semelhante.
The Omen (1976) – “A criança está morta.”

The Omen tem sua abertura em Roma, quando o Padre Spiletto informa Robert Thorn que seu filho recém-nascido morreu. Enquanto corre para o hospital, Robert ouve repetidamente essa notícia, que o leva a adotar secretamente outra criança, que será o Anticristo.
A frase inicial estabelece a base trágica da história antes mesmo de Damien aparecer. A chegada da criança não é animadora, mas cercada pela morte e pelo luto.
A frase é direta e fria, definindo desde o começo um tom sombrio e uma tragédia humana que antecede o surgimento do mal sobrenatural no enredo.
The Witch (2015) – “O que fomos buscar neste deserto?”

O filme dirigido por Robert Eggers começa com William (Ralph Ineson) falando diante de um tribunal puritano, questionando o motivo da família ter atravessado o Atlântico para buscar algo na América. Pouco depois, o grupo é expulso do assentamento por seu rigor religioso e obrigado a viver isolado na floresta.
A fala transforma a selva americana em lugar físico e simbólico, ao mesmo tempo que expõe a visão de William na busca por pureza espiritual — mas a narrativa mostrará que o isolamento será fatal.
A cena também destaca Thomasin (Anya Taylor-Joy), mostrando que, mesmo que a história se concentre nela, as decisões do pai a influenciam profundamente. A linguagem antiquada do monólogo posiciona o público dentro do universo dos puritanos do século XVII, ressaltando que o filme é sobre fé, medo e isolamento, não apenas sobre bruxaria.
House of 1000 Corpses (2003) – “Olá, pessoal! Gostam de sangue, violência e aberrações? Então venham ao museu do Capitão Spaulding!”
Rob Zombie inaugura House of 1000 Corpses com o Capitão Spaulding (Sid Haig) convidando o público para visitar seu Museu de Monstros e Loucos. A propaganda em preto e branco oferece sangue, violência e aberrações com o entusiasmo de um apresentador de circo.
Imagem: Divulgação
A fala de abertura transforma o espectador em um visitante, introduzindo a atmosfera “carnavalesca” e suja do filme, onde entretenimento e brutalidade se misturam.
Referências à “Alligator Boy”, “Murder Ride” e frango frito conferem realismo à atração e revelam o humor negro de Zombie. Essa introdução anuncia o estilo exagerado, sujo e teatral do filme antes que a violência comece.
Frankenstein (1931) – “Como vai? O senhor Carl Laemmle acha um pouco descortês apresentar este filme sem antes uma palavra de aviso amistoso.”
Antes do filme de James Whale começar, o ator Edward Van Sloan aparece e se dirige diretamente ao público para avisar que o produtor Carl Laemmle achou adequado fazer uma advertência sobre o conteúdo de Frankenstein.
O prólogo, incluído após a filmagem, visava responder preocupações sobre o material perturbador e seu impacto religioso. A postura educada do ator torna o aviso quase uma cortesia, criando uma sensação peculiar e charmosa.
Além de ser um anacronismo curioso, essa introdução acentua o tom de “terror acolhedor” presente em muitos filmes dos monstros da Universal, tornando-se parte da história e do charme do clássico.
The Thing (1982) – “Isso não é um cachorro!”
The Thing, de John Carpenter, começa com um helicóptero norueguês perseguindo um cachorro husky na neve da Antártida. Um atirador, frustrado, grita: “Isso não é um cachorro! É alguma coisa! Está imitando um cachorro!”, antes dos americanos o matarem.
O problema é que os americanos não entendem norueguês, então a informação importante é ignorada tanto pelos personagens quanto pelo público. O cão é mesmo o monstro disfarçado, e esse detalhe é uma revelação entregue logo no começo que muitos só perceberam depois do lançamento.
Carpenter entrega a chave da trama já na abertura, mas ninguém compreende, aumentando a tensão do filme.
Terrifier 3 (2024) – “Papai Noel?”
Terrifier 3 começa com uma cena aparentemente inocente na noite de Natal, em que uma criança escuta barulhos no andar de baixo, criando um clima familiar e festivo antes da chegada de Art the Clown vestido de Papai Noel.
A fala “Papai Noel?” destaca-se por não possuir conotação horripilante, mesmo sabendo o público o que vem depois. A frase vira uma ironia sádica que brinca com a expectativa do espectador, um elemento constante para os fãs da franquia.
O diretor Damien Leone planejou essa introdução direta para apresentar o vilão imediatamente, sem explicações sobre sua fantasia, aumentando o impacto chocante, nojento e até cômico da cena.
Nosferatu (1922) – “Nosferatu. O nome não soa como o chamado ao meio-noite do pássaro da morte?”
Nosferatu, dirigido por F. W. Murnau, abre-se com um texto explicando que o nome “Nosferatu” soa como o canto do pássaro da morte à meia-noite. O aviso pede para que o nome não seja pronunciado, sob pena de que as imagens da vida se transformem em sombras e sonhos fantasmais alimentem o sangue do espectador.
Assim, o filme apresenta o monstro antes mesmo de sua aparição, reforçando seu caráter mais demoníaco que o Conde Drácula. A prosa poética remete às origens literárias, ao mesmo tempo que explica o uso das sombras como tema central do filme.
Poucas aberturas de filmes de terror são tão sucintas e belas ao mesmo tempo.
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Com informações de ScreenRant
