O subgênero de horror conhecido como “good for her” vem ganhando destaque por apresentar personagens femininas que, frente a opressões e abusos, recuperam o controle de suas vidas, buscando vingança ou libertação. Ao longo dos anos, filmes de terror tradicionalmente mostraram mulheres que apenas escapavam ou derrotavam o vilão. No entanto, essas histórias trazem protagonistas tão fortalecidas que o final desperta reação de reconhecimento, como se fosse um “bien feito pra ela”.
O termo “good for her” se popularizou a partir da expressão sarcástica de Lucille Bluth na série Arrested Development, mas no universo do terror ele se aplica a filmes nos quais mulheres enfrentam manipulação, violência, traições ou até tormentos sobrenaturais antes de retomar suas vidas com autonomia. Importante destacar que esse tipo de horror não é sinônimo da “final girl” tradicional nem de histórias de vingança exploratórias, mas sim de narrativas em que o empoderamento feminino é genuíno, sem exploração do olhar masculino.
A violência pode ser contundente, mas carrega significado: as protagonistas fogem de sistemas, relações ou expectativas que as prendem. Mesmo quando atingem limites moralmente questionáveis, o público tende a torcer por elas.
Midsommar (2019)
Midsommar apresenta um dos namorados mais frustrantes do terror. Após a perda trágica de sua família, Dani é tratada com distância emocional e ressentimento por Christian, interpretado por Jack Reynor. Durante um dos piores momentos da vida dela, ele a faz sentir como um incômodo.
A comuna Harga, apesar de perturbadora, oferece a Dani algo único: empatia. A cena em que as mulheres refletem a tristeza dela eleva o enredo, tornando a manipulação cultual complexa e emocional. No desfecho, a imagem de Dani sorrindo é simultaneamente trágica e vitoriosa, pois ela encontra um grupo que a acolhe, ainda que o preço seja assustador.
The Witch (2015)
The Witch acompanha Thomasin vivendo sob acusações por problemas que não causou. Isolada em uma família puritana, ela serve de bode expiatório para qualquer adversidade. Mesmo antes das forças sobrenaturais surgirem, seu destino parece sombrio.
Ela é obrigada a se submeter a uma rígida estrutura social que a vê como inerentemente pecadora. Quando, no fim, Black Phillip a convida a “viver deliciosamente”, essa escolha simboliza liberdade, não corrupção. Thomasin finalmente opta pelo prazer e liberdade, fazendo do final um dos momentos mais marcantes do terror contemporâneo.
You’re Next (2011)
Em filmes de invasão domiciliar, habitualmente as vítimas tentam apenas sobreviver. Em You’re Next, Erin se destaca ao apresentar habilidades excepcionais de sobrevivência. Ela rapidamente avalia ameaças, mantém segurança e cria armas improvisadas.
O diretor Adam Wingard inverte a expectativa do público ao revelar Erin não como a típica namorada indefesa, mas sim como a pessoa mais perigosa na casa. Apesar de envolvida em um esquema de herança, ela se recusa a ser vítima e prevalece graças à sua preparação. O filme destaca as habilidades da protagonista do começo ao fim.
Carrie (1976)
A adaptação de Brian De Palma para o livro de Stephen King sobre Carrie é um dos dramas mais impactantes do gênero por fazer o público torcer pela personagem. A jovem sofre bullying na escola, abuso emocional em casa e exclusão social.
Sissy Spacek enfatiza a fragilidade de Carrie, tornando cada pequena vitória significativa. O baile de formatura oferece um momento de felicidade genuína antes do colapso final. O filme fundamenta o conceito “good for her” ao alinhar o espectador com a raiva e desespero de Carrie diante da crueldade incessante.
Revenge (2017)
Revenge começa evocando o gênero clássico de estupro e vingança, mas desconstrói essa perspectiva ao longo da narrativa. Matilda Lutz interpreta Jen, cuja transformação de vítima para força implacável é o motor do filme.
A violência contra Jen nunca é esquecida, mas Revenge evita defini-la só pelo sofrimento, focando em sua determinação e reapropriação da própria vida. O filme reflete criticamente sobre o gênero tradicional, misturando brutalidade e empoderamento de forma equilibrada.
Imagem: Divulgação
Ready or Not (2019)
Grace, personagem de Samara Weaving, entra em Ready or Not achando que vai se casar em uma família rica, mas descobre que virou vítima de um ritual sádico. Seu maior destaque está na humanidade e vulnerabilidade diante das situações absurdas, jamais como uma heroína invencível.
A família Le Domas representa privilégios abusivos que a descartam por interesses próprios. O desfecho com Grace derrotando esse sistema é amplamente recompensador. Além disso, a verdadeira traição ocorre por parte de seu marido, deixando Grace livre para rejeitar essa lealdade traidora.
Companion (2025)
Drew Hancock apresenta em Companion uma mistura de horror, ficção científica e comédia sombria, focada em temas de autonomia e controle. A história acompanha Iris, que após um trauma, é revelada como uma robô companheira.
O filme destaca a luta de Iris contra seu dono, Josh, que controla sua inteligência via aplicativo. Josh personifica um tipo moderno de vilão — manipulador e convencido de suas justificativas. Conforme Iris toma consciência e tenta definir sua identidade, a obra critica duramente esse tipo de dominação.
Hostel: Part II (2007)
Hostel: Part II surpreende ao subverter as expectativas do primeiro filme. Beth parece inicialmente presa no mesmo pesadelo das vítimas anteriores, caçada por elites que torturam por esporte.
Quando compreende o funcionamento da organização, Beth usa as regras contra eles. Ela compra sua entrada no grupo e a condição de não poder sair sem matar é atendida com a morte brutal de seu agressor masculino, simbolicamente o emasculando. O final é um dos mais audaciosos na filmografia de Eli Roth, oferecendo um encerramento inesperadamente empoderador.
The Menu (2022)
Margot chega em The Menu como uma outsider em meio a críticos gastronômicos e investidores em um jantar exclusivo do chef Slowik. Ela não tem pretensões e não cometeu nenhum erro grave, condição para participar do evento mortal.
Durante o filme, Margot desmonta as falsidades dos convidados, o que cria identificação com o público. Descobre-se que alguém a trouxe sabendo do perigo, mas seu momento mais satisfatório ocorre quando ela pede um simples cheeseburger, subvertendo o espetáculo do chef e conquistando sua liberdade.
Margot sai e observa calmamente o restaurante pegar fogo enquanto come seu hambúrguer, deixando claro que aquele horror não é problema dela. Good for her.
Com informações de Screen Rant
