Christopher Nolan realizou adaptações significativas em sua versão para o cinema do poema de Homero, A Odisséia, para ajustar a obra a um tempo de duração coerente e a uma linguagem que dialogue com o público atual. A transformação eliminou passagens e personagens importantes que, embora presentes no poema original de mais de 2.500 anos, foram consideradas inadequadas ou prejudiciais para a narrativa do filme.
O longa conquistou 93% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes e alcançou 97% de avaliação positiva do público. O filme também foi um sucesso comercial, arrecadando US$ 1,56 bilhão mundialmente, dos quais US$ 575 milhões nos Estados Unidos, mesmo com uma duração extensa de 2 horas e 52 minutos, quase três horas.
Apesar desse tempo longo, Nolan deixou de fora partes do trajeto de Odisseu, retirou personagens importantes e condensou eventos que, originalmente, ocorrem em períodos maiores, como um ano resumido em um só dia. A conclusão da história também foi alterada, nem todas as mudanças, no entanto, foram positivas.
Decisões acertadas: Zeus e Poseidon ficaram de fora

Uma decisão inicial de Nolan foi eliminar do filme os deuses Zeus e Poseidon, que na obra original são antagonistas importantes e responsáveis pelos obstáculos enfrentados por Odisseu e sua tripulação. No entanto, no filme, esses deuses são apenas mencionados, e suas ações aparecem de forma indireta nos desastres que atingem o protagonista.
Essa escolha reforça o tema central do longa, que é a fé e a crença nas divindades, mesmo na ausência de provas concretas. A equipe acredita que Odisseu teria enfurecido os deuses, e isso motiva os atritos. Odisseu, por sua vez, se surpreende com a incapacidade deles de seguirem as leis de Zeus.
Deveria ter mantido: a passagem pelo submundo com Aquiles

No filme, a cena do submundo foi alterada e introduz uma figura não presente na versão original de Homero: o soldado grego Sinon, conhecido por sua associação com o Cavalo de Troia e presente em A Eneida de Virgílio. Na sequência, aparecem soldados acusando Odisseu por não os ter honrado após a morte, mas o icônico confronto com Aquiles, que está na obra original junto com Hércules, Ajax e até a mãe de Odisseu, Anticleia, foi suprimido.
Esses personagens ausentes traziam uma reflexão sobre a futilidade da guerra e os perigos que aguardam o herói ao final de sua jornada, tornando a ausência de Aquiles uma falha da adaptação.
Corte justificado: o ano passado na ilha de Circe

Nolan optou por eliminar o longo período que Odisseu passou na ilha da feiticeira Circe. Na obra original, Odisseu permanece por um ano no local, onde convence Circe a reverter os encantamentos que transformaram sua tripulação em animais, mantém um relacionamento amoroso com ela e até tem um filho.
Esse trecho foi cortado porque contraria o tema principal do filme: a determinação do herói em voltar para sua família. A presença prolongada com Circe enfraqueceria essa mensagem. Da mesma forma, a relação com Calipso foi apenas sugerida na tela, com Odisseu sem lembranças reais dessa experiência.
Deveria ter incluído: a bolsa de couro com os ventos

Um dos elementos marcantes do poema que foi omitido no filme é a bolsa que Aeolus, o guardião dos ventos, presenteia a Odisseu. Dentro da bolsa, os ventos contrários são mantidos presos, facilitando uma viagem direta para Ítaca.
No entanto, durante a travessia, a tripulação de Odisseu, desconfiada e gananciosa, abre a bolsa crendo que ela guarda tesouros, libertando tempestades que os fazem retornar até a ilha de Aeolus, que se recusa a ajudar novamente. Esse trecho evidencia que os problemas durante a jornada são culpa tanto do herói quanto de seus homens, o que não fica claro no filme.
Decisão acertada: Telemaco não executa as 12 criadas

Após o retorno de Odisseu, ele rapidamente elimina os pretendentes que assediavam sua esposa, Penélope, e assumem o controle da casa. Embora essa vingança seja central para o desfecho, o filme evita uma cena presente no poema em que Telemaco, filho de Odisseu, executa 12 criadas por deslealdade, por terem se relacionado com os invasores.
A ausência dessa sequência contribui para a caracterização positiva do personagem no filme. No fim, Telemaco está preparado para governar sem recorrer a esse ato violento.
Ficou faltando: a cama de oliveira imutável
Um símbolo importante da união entre Odisseu e Penélope no poema é a cama feita a partir de uma árvore de oliveira enraizada na casa, que é impossível de mover. Penélope questiona Odisseu sobre essa característica para testá-lo, e ele prova seu conhecimento da casa e da relação.
A exclusão dessa cena foi questionada, pois não impactaria muito a narrativa principal e serviria para conferir significado à relação do casal. A dificuldade estaria na produção, já que seria necessário construir a estrutura para tornar a cama visualmente fixa.
Imagem: Melinda Sue Gord
Corte justificável: Odisseu não recupera o trono
Na obra original, após matar os pretendentes, Odisseu reassume o controle do reino sem enfrentar as consequências das mortes, ignorando a possibilidade de vingança das famílias destes.
No filme, Nolan opta por um final mais realista, no qual Odisseu sabe que não poderá recuperar seu trono e enfrenta o exílio. Penélope o acompanha, enquanto Telemaco assume a liderança. A decisão reforça a mudança de personagem de Telemaco e conecta diretamente à ausência da execução das criadas, o que o tornaria inapto para governar.
Deveria ter mantido: o truque do “Ninguém” contra o Ciclope
Logo no início da jornada, Odisseu e seus homens ficam presos pelo Ciclope, filho de Poseidon. No filme, ao invés do clássico engano, eles simplesmente o cegam e escapam, provocando a ira do deus dos mares.
No poema, Odisseu diz ao Ciclope que seu nome é “Ninguém”. Ao ser ferido, o ciclope grita que “Ninguém” o está atacando, o que impede que seus companheiros socorram. Essa artimanha, seguida do desafio de Odisseu ao gritar seu nome verdadeiro, é crucial para a narrativa e não deveria ter sido omitida.
A Odisséia
Gênero: Aventura, Ação, Fantasia
Data de lançamento: 15 de julho de 2026
Duração: 173 minutos
Diretor: Christopher Nolan
Roteiristas: Christopher Nolan, Homero
Produtores: Christopher Nolan, Emma Thomas
Elenco principal
- Matt Damon como Odisseu
- Tom Holland como Telêmaco
A versão de Nolan de A Odisséia promoveu diversas alterações para modernizar e ajustar o poema para as telas. Algumas escolhas foram acertadas, enquanto outras deixaram de fora elementos que aprofundariam a história da jornada de Odisseu e seus personagens.
Veja também
- O que Christopher Nolan cortou e deveria ter mantido em sua adaptação de "A Odisséia"
- The Odyssey de Christopher Nolan alcança marco raro de bilheteria após 17 anos
- As 12 melhores cenas dos filmes de Christopher Nolan, incluindo duas de The Odyssey
Com informações de ScreenRant
