Com o mundo dividido entre avanços tecnológicos e receios quanto à inteligência artificial, a estreia na Netflix do filme biográfico Unabomber surge em um momento delicado. O longa aborda a vida de Theodore Kaczynski, conhecido pelo terrorismo doméstico ideológico contra a tecnologia, trazendo à tona um tema controverso. Dirigido por Janus Metz Pedersen, conhecido pelo trabalho em Andor, o filme apresenta uma história que se desdobra em duas linhas temporais distintas.
Duas linhas temporais e enfoque na trajetória do terrorista
Unabomber alterna entre o final dos anos 1960, com um jovem Kaczynski (Jacob Tremblay) em Harvard, e o período entre 1994 e 1996, quando o FBI caça e captura o terrorista. Na primeira fase, são mostrados os rigorosos testes psicológicos aplicados pelo Dr. Henry Murray, interpretado por Russell Crowe, conhecido por seu perfil psicanalítico de Adolf Hitler. Esses testes, posteriormente considerados antiéticos, eram feitos com a intenção de quebrar os sujeitos, enquanto Kaczynski acreditava estar sendo avaliado por suas habilidades filosóficas.
Na segunda linha temporal, a agente do FBI Joanne Miller, vivida por Shailene Woodley, investiga a conexão de Kaczynski com uma série de atentados que durou 18 anos e deixou três mortos e 23 feridos. As vítimas incluíam figuras proeminentes das áreas de tecnologia, academia e aviação. O filme, com duração de apenas 97 minutos, tenta gerar dúvidas sobre a influência dos testes psicológicos na formação do criminoso, mas a tentativa não se sustenta e resulta em uma narrativa com problemas de identidade.

Paralelos entre Unabomber, Uma Mente Brilhante e O Silêncio dos Inocentes
A parte do filme ambientada em Harvard lembra o drama Uma Mente Brilhante devido à luta de Kaczynski para se adaptar, expor suas ideias e encontrar seu propósito, embora as diferenças sejam significativas. Enquanto o filme sobre John Nash aborda a esquizofrenia, Unabomber destaca as dificuldades sociais e impactos causados pelos testes psicológicos, que tinham como premissa provar que qualquer pessoa poderia ser quebrada. Tremblay entrega uma atuação marcada pela distância emocional, interpretando um jovem Kaczynski isolado, semelhante ao personagem Número Cinco de The Umbrella Academy.
Russell Crowe encarna Henry Murray como um homem determinado a continuar seus experimentos, assumindo um tom frio e aparentemente indiferente às consequências, com nuances de desumanidade que fogem ao estereótipo comum de cientistas nazistas. Sua interpretação, apesar de sólida, contrasta com papéis anteriores do ator, como Hermann Göring em Nuremberg (2025).
Na linha temporal posterior, Joanne Miller assume um papel similar ao de Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes, conduzindo os esforços para pôr fim à onda de ataques. Apesar da atuação competente de Woodley, essa parte do filme é menos aprofundada e acaba menos interessante do que a exploração da juventude de Kaczynski.

Filme desconexo e intenções pouco claras
Unabomber dá a impressão de ser dois filmes diferentes mesclados em um único projeto, e essa estratégia prejudica o desenvolvimento das histórias. Os experimentos de Murray, apesar de chocantes, são apenas superficialmente trabalhados, o que causa uma sensação de falta de profundidade. Já a linha do FBI apresenta clichês de séries policiais e não aprofunda os personagens.
A ausência de Kaczynski em 95% da linha temporal mais recente sugere uma proposta de evidenciar o impacto dos testes psicológicos em sua trajetória criminosa, embora na realidade o próprio terrorista tenha negado essa relação, atribuindo seus atos a convicções racionais próprias. Essa escolha narrativa, no entanto, parece insuficiente para explicar toda a motivação do homem por trás dos atentados.
O longa é marcado por uma narrativa fragmentada e, em certos aspectos, problemática. Ele expõe o ódio de Kaczynski pelas direções tomadas pela sociedade, mas limita-se a mostrar sua trajetória após Harvard sob o ponto de vista da agente do FBI. Isso pode levar espectadores sem conhecimento da história real a interpretarem o caso de forma imprecisa e restrita.
Para um filme que se apresenta como baseado em fatos reais, falta uma abordagem mais completa e fiel às complexidades da personalidade e dos motivos do Unabomber. A omissão do próprio testemunho de Kaczynski abre debate sobre os limites entre entretenimento e verdade histórica.
Imagem: Divulgação
A ênfase dada à “origem” do terrorista em Harvard acaba impulsionando a narrativa para um paralelo desconfortável com o filme Coringa, de Todd Phillips, ao romantizar um criminoso em um duelo intelectual. Apesar de ter precedentes, essa escolha narrativa não consegue retratar com profundidade as razões que fizeram Kaczynski ser o Unabomber, tampouco o impacto dos seus atentados.
Unabomber está disponível para streaming na Netflix em todo o mundo a partir de sexta-feira, 25 de setembro.

DADOS DO FILME
- Data de lançamento: 25 de setembro de 2026
- Duração: 97 minutos
- Diretor: Janus Metz
- Roteiristas: Nelson Greaves, Sam Chalsen
Elenco principal:
Russell Crowe como Henry Murray- Jacob Tremblay como Ted Kaczynski
Produção: Sophie Cassidy
O filme recebeu nota 5/10, refletindo as críticas quanto à sua abordagem dividida e falta de profundidade.
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Com informações de Screen Rant
