Antes do lançamento de “The Social Network”, em 2010, a ideia de um filme sobre o Facebook parecia improvável. Porém, o trailer icônico, embalado por uma versão perturbadora da música “Creep” do Radiohead, mudou rapidamente a percepção do público. Com direção de David Fincher, elenco acertado e trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, o filme tornou-se um clássico contemporâneo, impulsionado principalmente pelo roteiro ágil e premiado de Aaron Sorkin.
Muitos aguardavam um filme sequência que explorasse os acontecimentos posteriores na complexa esfera das redes sociais. Essa continuação veio agora sob o título “The Social Reckoning”. No entanto, o longa dirigido por Sorkin não alcança o sucesso do antecessor, apresentando uma narrativa apática e desconexa que parece cansativa mesmo com duração inferior.
The Social Reckoning transforma história promissora em trama monótona

Embora os filmes tenham objetivos distintos, é inevitável comparar os dois. Sorkin demonstra novamente suas habilidades no roteiro, mas revela limitações na direção. Diferente do estilo marcante de Fincher no filme original, aqui predomina uma abordagem sem energia ou identidade visual. O enredo dramatiza um escândalo real, em que a funcionária do Facebook Frances Haugen decide se tornar delatora, vazando informações comprometedoras ao Wall Street Journal.
O relato mostra que a empresa deliberadamente manipulava algoritmos para aumentar discursos de ódio e desinformação, incentivando o lucro às custas da saúde emocional de usuários, principalmente jovens. Apesar da gravidade das denúncias e processos judiciais, Mark Zuckerberg permanece intocado, e a plataforma continua ativa, evidenciando a falta de um desfecho efetivo para o caso.
Mikey Madison e Jeremy Allen White entregam atuações descompassadas

Mikey Madison interpreta Frances Haugen, personagem que demonstra uma postura contraditória: apaixonada pelo trabalho, porém preocupada com as consequências negativas da rede social. A atuação não convence, com dificuldades na entrega das extensas falas técnicas e emotivas da personagem. Já Jeremy Allen White vive Jeff Horwitz, jornalista relutante mas determinado em investigar o escândalo. Sua intensidade exagerada destoa da proposta de humor seco que o roteiro tenta estabelecer entre os dois, sem que a química entre eles se desenvolva.
Jeremy Strong interpreta Zuckerberg como figura distante e caricata

A narrativa alterna entre o trabalho investigativo de Horwitz e os depoimentos de Zuckerberg no Congresso. Jesse Eisenberg, que interpretou o fundador do Facebook no filme anterior, optou por não retornar, sendo substituído por Jeremy Strong. Sua versão de Zuckerberg é fria e quase sem vida, o que carrega a personagem para uma caricatura. O visual do ator reforça essa imagem sombria, mas uma breve crise de consciência da personagem no terceiro ato soa deslocada frente ao desenvolvimento anterior.
As únicas cenas que apresentam algum vigor são aquelas com Strong, especialmente nas interações com Bill Burr, que vive um dos poucos aliados de Zuckerberg pressionando-o a mudar. Contudo, tais apelos são ignorados, com Zuckerberg se protegendo atrás da defesa da “liberdade absoluta de expressão”.
Imagem: Divulgação
Roteiro e direção carecem de ritmo e vigor

O texto de Sorkin, conhecido por diálogos rápidos e afiadas, aqui apresenta-se sem entusiasmo, com falas expositivas e pouco envolventes. A direção contribui com cenas estáticas e sem personalidade, limitando-se a mostrar personagens em quartos de hotel analisando dados em laptops, sem dinamismo visual. Momentos que poderiam trazer leveza, como debates sobre “mansplaining”, soam forçados e problemáticos.
A trilha sonora de Alexandre Desplat, discreta e esquecível, pouco ajuda em comparação à composição original de Reznor e Ross, que marcou o filme de 2010 e aumentava sua tensão dramática.
Filme é uma experiência frustrante e sem resolução
“The Social Reckoning” deixa a sensação de oportunidade perdida. O escândalo Facebook é um tema relevante e grave, mas o filme tenta transformá-lo em uma história de heroísmo otimista, falhando em retratar sua verdadeira dimensão sombria. Frances Haugen merece reconhecimento, mas o desfecho da história real mostra que não houve punição significativa e a plataforma permanece influente. O título sugere uma consequência que nunca ocorreu.
A avaliação do site é 4 de 10. O filme estreia nos cinemas em 9 de outubro de 2026.
Veja também
- Filme “The Social Reckoning”, de Aaron Sorkin, decepciona como continuação de “The Social Network”
- Filme "Fjord" retrata família cristã e conflito com Serviço de Proteção Infantil na Noruega, mas é criticado por narrativa unilateral
- Filme de Adam Wingard "Onslaught" já está disponível para aluguel e compra digital
Com informações de SlashFilm
