Após trabalhar nos blockbusters “Godzilla vs. Kong” e “Godzilla x Kong: The New Empire” e projetos controversos como “Death Note” e “Blair Witch”, o diretor Adam Wingard voltou ao estilo que o destacou para fãs de cinema. Seu novo filme, “Onslaught”, é uma releitura de “Assault on Precinct 13”, de John Carpenter, e mostra soldados geneticamente modificados atacando uma comunidade de trailers, enquanto uma mãe determinada (vivida por Adria Arjona) luta para proteger seu entorno.
Wingard detalhou os motivos que o fizeram deixar a franquia de monstros para investir em uma história mais íntima e de menor escala. “Senti que fazia muito tempo que não realizava um filme meu, que de alguma forma ou as pessoas não sabiam quem eu era ou tinham me esquecido. Precisava fazer uma obra que consolidasse meu estilo como cineasta, e este é o projeto certo”, afirmou o diretor.
Uma obra que reflete novas vivências e um olhar crítico
Considerando “Onslaught” como parte de uma trilogia espiritual junto a “You’re Next” e “The Guest”, Wingard explicou que esses filmes tratam de segredos que provocam graves consequências. Para ele, a melhor fase de sua carreira ocorre ao abordar uma perspectiva americana, que desconstrói o complexo industrial militar e programas secretos.
O diretor revelou que agora, sendo pai, sentiu vontade de contar uma trama que envolvesse essa nova experiência pessoal. “No universo das franquias, as decisões muitas vezes giram em torno da nostalgia e de deixar minha marca, mas não são histórias pessoais. Em contrapartida, meus filmes iniciais, como ‘Pop Skull’, ‘A Horrible Way to Die’, ‘You’re Next’ e ‘The Guest’, sempre foram muito íntimos”.
Após alcançar o auge com dois filmes de Godzilla, que ultrapassaram US$ 150 milhões em bilheteria cada, Wingard decidiu seguir um caminho que reafirmasse sua identidade cinematográfica. “Será quem eu sou como diretor, despojado das franquias de grandes IPs”, comentou.
Interesse por conspiracionismo influenciou a criação de Onslaught
Wingard revelou que sua pesquisa sobre teorias conspiratórias não começou na produção do filme, mas sim ao longo da vida. A influência do pai, que possuía livros sobre o assassinato de JFK, e o interesse gerado após o 11 de setembro ajudaram a despertar essa curiosidade.
“Quando o 11 de setembro aconteceu, a internet foi inundada com as teorias mais variadas, desde a ideia de que o Pentágono não foi atingido por um avião, mas por um míssil, até suposições sobre hologramas”, relatou o diretor, ao afirmar que nunca aderiu a tais teorias, mas se interessa por elas como “exercício mental”.
Livro obscuro e invisibilidade inspiraram elementos do filme
Um dos grandes impulsos para o roteiro veio do livro pouco conhecido “Chameleo”, que relata a experiência de um homem acreditando que uma equipe militar invisível o espionava em sua casa. Wingard relatou que o autor sofreu perseguições e paranoia após publicar a obra, aumentando o mistério sobre o conteúdo.
Embora a invisibilidade não tenha sido utilizada no filme, suas ideias foram fundamentais para ampliar a trama em torno de programas secretos e super soldados. “Fico curioso se mencionar ‘Chameleo’ vai fazer aparecer pessoas invisíveis na minha casa”, brincou o cineasta.
Sequência de violência reflete questões atuais nos EUA
Sobre a cena no posto de gasolina, na qual civis são massacrados por super soldados, Wingard destacou que se trata de um momento difícil de assistir, especialmente por remeter aos frequentes tiroteios em massa nos Estados Unidos. “Esse tipo de cena talvez não pudesse ser feita há uma década, mas a dessensibilização no país permite que agora ela seja mostrada como parte da realidade.”
O diretor pontuou as limitações criativas frequentes durante as produções de franquia, nas quais é preciso equilibrar a visão artística com o que o estúdio aceita. “Quis fazer um filme que não agradasse a todos, mas que fosse acessível e divertido para grande público. Porém, é importante enfrentar temas reais, e para os filmes de horror o reflexo do tempo é essencial. Hoje, a violência armada é um dos maiores medos.”
Violência do filme é propositalmente dura e realista
Wingard explicou que o tratamento da violência na sequência com armas de fogo foi diferente do restante do filme. “Em filmes de slasher tradicionais, a violência é gráfica, mas não impacta emocionalmente a longo prazo. O problema com os tiroteios é que são extremamente relacionáveis e perturbadores.”
Imagem: Divulgação
O diretor contou que a cena não é gratuita e que mostra menos do que o público imagina, optando por um som cru e sem trilha musical, recriando a sensação real do ambiente. “Queríamos eliminar qualquer glamour cinematográfico nas armas, enfatizando a dureza dos disparos no espaço confinado”, detalhou.
Ele admitiu que durante a edição temeu a rejeição dessa sequência pelo público em testes, mas houve poucas alterações — uma redução quase imperceptível de mortes. Para Wingard, o fato de essa cena ser aceita demonstra um preocupante nível de normalização da violência armada atual.
Possibilidade de continuidade no universo do filme
O diretor comentou o intrigante uso de recortes de jornal e fotos conectados por fios vermelhos nos créditos finais. Segundo ele, trata-se da perspectiva de um conspiracionista tentando unir informações — um personagem que pode ser explorado em futuras produções.
Wingard confirmou planos de expandir a história e mencionou que a atual trilogia, da qual Onslaught faz parte, pode dar origem a uma nova, com desdobramentos e spin-offs.
Afinidade de Wingard com trilhas musicais eletrônicas e sintetizadores
Wingard falou sobre sua preferência por trilhas sonoras com sintetizadores, comum nos filmes que o influenciaram, principalmente os de John Carpenter. Ele explicou que, quando estudava cinema em 2002, essa escolha era vista como ultrapassada em comparação com orquestras, citando o exemplo do score de “Blade Runner”.
Para ele, tanto as trilhas orquestrais quanto as eletrônicas podem soar datadas, mas a música eletrônica voltou a ter relevância e tornou-se atemporal. Wingard destacou que, na sua infância, obras como “Big Trouble in Little China” marcaram seu gosto por esse estilo.
Desafio de adaptar a trilha sonora na franquia Godzilla
Apesar do apreço por trilhas eletrônicas, Wingard reconhece que os filmes de Godzilla demandaram trilhas orquestrais por exigência do gênero e público. “Os scores eletrônicos têm flexibilidade para serem adaptados na edição, funcionando quase como um papel de parede sonoro, enquanto as orquestras exigem precisão total nos cortes”.
Ele destacou que apenas cerca de 20% da trilha em Onslaught foi criada na pós-produção, algo que facilitou alinhar a edição das cenas à música.
Onslaught está em cartaz nos cinemas.
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Com informações de SlashFilm
