O documentário “You Can See Everything”, dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, acompanha os últimos 34 dias na vida de Elizabeth Holmes antes de ser levada para cumprir sua pena de 11 anos de prisão por fraude envolvendo a startup Theranos. O filme mostra a rotina de Holmes em uma casa modesta em San Diego, ao lado do namorado Billy Evans e dos dois filhos do casal, enquanto ela tenta refazer sua imagem e seguir na busca por um novo projeto similar ao Theranos.
Holmes e o novo projeto que tenta repetir promessa da Theranos
Durante a gravação, Holmes e Evans afirmam aos cineastas que eles “podem ver tudo”, reforçando que não têm nada a esconder, incluindo o desenvolvimento de um dispositivo que seria uma evolução do Edison, aparelho que prometia realizar centenas de exames de sangue com poucas gotas, mas que na prática não funcionava como anunciado. Holmes mantém a tese de que sua empresa entregou o que prometeu, e que as limitações técnicas estariam para a ciência superar. Evans complementa afirmando que o modo de pensar de Holmes seria diferente do comum.
Documentário com 174 minutos é surpreendentemente envolvente
Com 174 minutos de duração, “You Can See Everything” mantém o espectador interessado ao longo do filme graças à interação honesta e bem-humorada de Nathan Fielder, que também dirige, e seu olhar atento sobre os entrevistados e situações registradas. Fielder, conhecido pelos programas “Nathan for You” e “The Rehearsal”, traz seu estilo único, combinando humor desconfortável com questionamentos diretos à protagonista, o que contribui para a fluidez do longa.
O jogo de manipulação entre Nathan Fielder e Elizabeth Holmes
Em um dos momentos-chave, Fielder tenta entender por que Holmes não reconhece ter cometido um crime, chegando à conclusão de que a diferenciação está nas palavras. Holmes explica que a promessa era de uma tecnologia com potencial para realizar os testes, mas que a química molecular ainda não acompanhou os avanços do aparelho, justificando o número de exames limitados que efetivamente funcionavam. Para ela, o entendimento público teria sido distorcido.
Para ilustrar a confusão, Fielder apresenta o clássico esquete de comédia “Who’s on First?”, de Abbott & Costello, cuja confusão em nomes teria semelhança com a conversa com Holmes – que, por sua vez, revela desconhecer o humor por trás da peça. A reação sugere a possibilidade de uma desconexão lógica da personagem, uma apontada até por Evans como positiva para reforçar essa percepção.
Billy Evans e seu comportamento autoritário
Uma das revelações mais inquietantes do documentário é o comportamento de Billy Evans, que demonstra exercer domínio e controle na relação com Holmes. Em uma cena, ele simplesmente retira das mãos dela a tigela e o garfo usados para mexer ovos, situação que suscita um questionamento direto de Fielder e evidencia uma dinâmica de controle silencioso.
Após Holmes ser enviada para a prisão, por volta da metade do filme, o foco se desloca para a influência da série “The Dropout”, da Hulu, que dramatiza o escândalo Theranos e passa a ser assistida por Holmes e Evans, enquanto Fielder acompanha tudo. Este momento marca uma virada narrativa, mostrando um lado mais obscuro de Evans, além de trazer uma atmosfera que lembra as produções anteriores de Fielder.
Imagem: Divulgação
Documentário impacta mesmo quem desconhece a história de Elizabeth Holmes
“You Can See Everything” se destaca por sua narrativa envolvente e complexa, que prende o espectador independentemente da familiaridade com o caso Theranos. O olhar atento sobre as expressões faciais e a condução do filme por Fielder promovem uma experiência que provoca mais questionamentos do que respostas, deixando no ar dúvidas sobre quem manipula quem.
A participação de Nathan Fielder na direção e presença diante das câmeras se mostra uma escolha criativa fundamental, capaz até de renovar o interesse em uma história tão já explorada na mídia. O desfecho do documentário mantém esse clima instigante, fazendo do longo registro um material imperdível para os apreciadores de documentários sociais e ligados a casos reais de fraude.
“You Can See Everything” estreia nos cinemas em 16 de outubro de 2026.
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Com informações de SlashFilm
