A cinematografia em preto e branco, antes uma necessidade técnica, hoje é uma escolha estética consciente no cinema de terror contemporâneo. Diretores modernos optam por esse formato para remeter ao cinema mudo, recriar o estilo dos monstros clássicos da Universal, destacar o isolamento psicológico ou criar uma atmosfera surreal e distante da realidade. Isso resulta em algumas das produções mais marcantes visualmente do século XXI.
O terror moderno em preto e branco ocupa um espaço peculiar dentro do gênero. Alguns títulos utilizam o monocromático para tornar a violência mais fria e clínica, enquanto outros adotam sombras expressionistas para transformar cenários comuns em paisagens surreais e assustadoras. Há também aqueles que imitam a estética de filmes antigos, misturando homenagem e inovação.
Esses filmes perderiam muito de seu impacto se fossem apresentados em cores convencionais. Entre pesadelos do folclore, terrores cósmicos, faroestes vampíricos e colapsos psicológicos, essas obras mostram por que a cinematografia em preto e branco continua sendo uma das ferramentas mais poderosas do terror moderno.
November (2017)
O longa estoniano November, baseado no romance Rehepapp, de Andrus Kivirähk, mistura terror folclórico, fantasia sombria, romance e comédia absurda numa obra única inspirada na mitologia da Estônia. A trama acompanha camponeses que dependem de servos sobrenaturais chamados kratts enquanto enfrentam lobisomens, demônios, fantasmas e magia antiga.
A fotografia em preto e branco, assinada por Mart Taniel, transforma florestas, fazendas e cenas de neve em ilustrações de folclore que parecem ganhar vida. Algumas cenas foram filmadas com câmeras infravermelho, o que intensifica o contraste e o impacto visual. November não usa o folclore como enfeite, mas sim para imergir o público em uma sociedade onde a magia é parte do cotidiano. O filme é engraçado, inquietante, romântico e realmente assustador, soando como um conto gótico em forma de filme.
A Girl Walks Home Alone At Night (2014)
O filme de estreia de Ana Lily Amirpour é considerado o primeiro faroeste vampiro iraniano, embora essa definição não capte sua originalidade. Situado na fictícia Bad City, o filme mostra uma vampira solitária, chamada simplesmente “The Girl” e interpretada por Sheila Vand, que persegue criminosos e predadores, enquanto desenvolve uma inesperada ligação com o jovem Arash.
A fotografia em preto e branco confere à Bad City uma aura onírica, transformando campos de petróleo, ruas vazias e áreas industriais em cenários belos e singulares para uma narrativa que mistura horror, romance e influências do cinema de arte. O aspecto visual remete ao cinema mudo, mas mantém uma identidade contemporânea.
Vand entrega uma atuação hipnótica, especialmente nas cenas em que a personagem oscila entre vulnerabilidade e predadora assustadora. Sem recorrer a sustos repentinos, o filme cria tensão por meio de uma atmosfera genuinamente distinta.
The Lighthouse (2019)
Robert Eggers, após o horror de época The Witch, lançou The Lighthouse, uma narrativa ainda mais incomum sobre a loucura. Passada em uma ilha isolada da Nova Inglaterra na década de 1890, a história acompanha os faroleiros interpretados por Robert Pattinson e Willem Dafoe, cuja solidão desencadeia paranoia, violência e possíveis eventos sobrenaturais.
Filmado em preto e branco rigoroso, com proporção quase quadrada, o longa parece um artefato perdido do cinema primitivo. Essa escolha visual amplia a sensação de claustrofobia, aprisionando os personagens instáveis. As atuações são consideradas marcos na carreira de Dafoe e Pattinson, que transformam conflitos simples em batalhas psicológicas grandiosas.
The Lighthouse reúne folclore marítimo, mitologia grega, horror cósmico e humor negro em uma narrativa propositalmente enigmática. As imagens grotescas de sereias e deuses do mar são memoráveis. Poucos filmes de terror atuais arriscam tanto na experimentação visual e continuam tão envolventes.
The Eyes Of My Mother (2016)
O primeiro longa de Nicolas Pesce é um dos mais perturbadores do terror psicológico recente. Em The Eyes of My Mother, a jovem Francisca vive em isolamento rural até que um ato de violência muda sua vida. Com o passar dos anos, a solidão e o trauma a conduzem a comportamentos cada vez mais macabros.
A escolha pelo preto e branco não ameniza a brutalidade do filme; ao contrário, torna as cenas mais incômodas. Pesce aborda os horrores com certa distância clínica, direcionando o foco para o impacto emocional em vez do gore explícito.
Kika Magalhães entrega uma atuação impressionante, tornando Francisca simultaneamente simpática, trágica e aterrorizante. Com uma narrativa minimalista e imagens profundas, o longa de 77 minutos cria uma sensação de tristeza duradoura, aproveitando cada instante do tempo de tela.
The Whisperer In Darkness (2011)
Produzido pela H.P. Lovecraft Historical Society, The Whisperer In Darkness adapta um dos contos mais famosos de Lovecraft com fidelidade ao estilo do cinema clássico de horror. A trama se passa em Vermont e mostra o acadêmico Albert Wilmarth investigando relatos de criaturas estranhas relacionadas a enchentes catastróficas.
Diferente de outras adaptações que têm dificuldade em transmitir o horror cósmico, o filme abraça suas raízes pulp. A fotografia em preto e branco lembra os filmes de monstros da Universal e thrillers dos anos 1930, conferindo autenticidade aos eventos cada vez mais estranhos.
A narrativa é ampliada de forma inteligente sem perder a atmosfera tensa. Conforme Wilmarth descobre evidências de seres extraterrestres nas montanhas, o suspense cresce. Ainda que produzido com orçamento reduzido, The Whisperer In Darkness está entre as adaptações de Lovecraft mais bem-sucedidas já feitas.
The Call Of Cthulhu (2005)
Antes de The Whisperer In Darkness, a mesma equipe da H.P. Lovecraft Historical Society produziu talvez a adaptação mais criativa do autor: The Call Of Cthulhu. O filme simula um longa mudo real dos anos 1920 inspirado na história icônica de Lovecraft.
Imagem: Divulgação
A produção mantém com rigor o estilo da época, usando legendas, atuações expressionistas, efeitos práticos e técnicas antigas para conseguir a sensação de que o público assiste a um clássico perdido, e não uma obra contemporânea.
Esse comprometimento se torna uma ferramenta perfeita para a ficção lovecraftiana. A narrativa fragmentada, sobre investigadores em busca de pistas sobre uma antiga entidade cósmica, é fiel ao material original. O preto e branco facilita a representação dos horrores impossíveis e lugares oníricos, superando a maioria das abordagens modernas que dependem de CGI.
Darling (2015)
Darling, dirigido por Mickey Keating, é um filme de terror psicológico que homenageia influências como Repulsion, de Roman Polanski, e outros clássicos dos anos 1960. O enredo acompanha uma jovem contratada para vigiar uma mansão isolada em Manhattan com um passado sombrio.
Lauren Ashley Carter oferece uma interpretação convincente da protagonista que vai se fragmentando sob o peso da solidão e da paranoia. Keating utiliza edições agressivas, closes extremos e fotografia em preto e branco para imergir o espectador no colapso mental da personagem.
O visual monocromático transforma a mansão em um labirinto de sombras e espaços distorcidos. Corredores comuns se tornam ameaçadores, enquanto a trilha sonora intensifica ruídos sutis. Embora polarize opiniões, Darling é destaque entre os filmes independentes de terror da década de 2010 pela segurança visual e a exploração do terror psicológico.
Bramayugam (2024)
O filme de terror em língua malaiala Bramayugam, dirigido por Rahul Sadasivan, prova que a cinematografia em preto e branco ainda pode surpreender. A história acompanha um cantor ambulante preso numa mansão misteriosa governada por um nobre sinistro.
A fotografia monocromática confere ao filme uma qualidade quase mitológica, destacando arquitetura antiga, florestas densas e escuridão sobrenatural. Cada cena é cuidadosamente composta. Mammooty entrega uma das performances mais marcantes da carreira, dando vida a um vilão que domina o longa.
Bramayugam combina folclore, terror histórico e mistério sobrenatural, mantendo tensão constante. O filme evita sustos tradicionais e cria medo por meio de atmosfera e incertezas. Rapidamente, tornou-se um dos principais títulos de terror de 2024 e um modelo contemporâneo de uso do preto e branco.
The Girl With The Needle (2024)
The Girl with the Needle situa-se na fronteira entre drama histórico e terror psicológico, com um clima de desespero e ameaça. Inspirado por eventos reais na Dinamarca pós-Primeira Guerra Mundial, o filme acompanha uma jovem cuja situação desesperada a aproxima de um estranho aparentemente benevolente.
A fotografia em preto e branco cria imagens de grande beleza e ao mesmo tempo desolação. As ruas de Copenhague se tornam espaços opressivos, marcados por pobreza, desespero e decadência moral.
A força do filme está na ausência de sensacionalismo. O diretor Magnus von Horn constrói a tensão de modo gradual, por meio de interações entre personagens e detalhes históricos, resultando em uma experiência mais perturbadora que o terror tradicional. Os visuais marcantes e o tema intenso fazem desse um dos mais memoráveis filmes em preto e branco recentes.
The Righteous (2021)
The Righteous é uma mistura inquietante de terror psicológico, culpa religiosa e mistério gótico. Dirigido por Mark O’Brien, que também atua como Frederic Mason, um ex-padre lidando com tragédias pessoais ao lado de sua esposa, Ethel. A chegada de um jovem estranho provoca uma reviravolta na aparentemente frágil rotina do casal.
O que começa como um ato de caridade se transforma em um confronto com pecados ocultos e traumas não resolvidos. O preto e branco reforça os conflitos espirituais e emocionais, com sombras dominando cenários internos e refletindo a culpa e incerteza dos personagens.
O filme evita efeitos sobrenaturais para focar em atuações e atmosfera. O’Brien e Henry Czerny entregam performances impressionantes, e a tensão cresce até revelações perturbadoras. Embora seja o título menos conhecido da lista, The Righteous é uma joia escondida do cinema moderno de terror, com combinação única de horror teológico e estética monocromática.
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Com informações de Screen Rant
